Alpine A390: fastback EV estreia com 3 motores, 470 cv e tração integral
Com 555 km de alcance, modelo é mais um passo da marca rumo à eletrificação total
Quando começaram a dizer que a Alpine faria um SUV, a ideia parecia um insulto à memória de Jean Rédélé (1922-2007). O fundador da marca, afinal, fez seu nome com levíssimos esportivos (ou melhor: berlinettes), criados a partir de pequeninos sedãs como os Renault 4CV, Dauphine e R8. Quem já tentou se acomodar dentro de um Willys Interlagos — o Alpine A108 fabricado no Brasil dos anos 60 — saberá o quão compacto estamos falando…
O próprio nome Alpine remete às estradas sinuosas dos Alpes, onde Rédélé se sentia em casa, vencendo ralis com seu Renôzinho “Rabo Quente” envenenado. Nada mais distante do conceito clássico de um utilitário.
Alpine A390, o SUV elétrico esportivo
Hoje, contudo, são os SUVs que sustentam as fábricas de esportivos. E no caso da Alpine, os puristas já podem respirar aliviados: o A390 — revelado hoje na França e com início das vendas previsto para o último trimestre deste ano — não é um utilitário na exata acepção da palavra.
Obra da equipe comandada por Antony Villain, diretor de design da marca, seu estilo final é bem próximo ao do conceito A390_β (Beta), apresentado no Salão de Paris do ano passado. Em vez de um utilitário esportivo “balofo”, o que temos é um modelo de dimensões relativamente enxutas e categoria até difícil de definir. A Alpine o chama de “sport fastback”.
O carro também pode ser encarado como um cupê quatro portas, um sedã com suspensão mais elevada ou, quem sabe, um crossover. Foi desenvolvido sobre a plataforma AmpR Medium, criada pela divisão Ampère do Renault Group para veículos elétricos médios, como o (excelente) Renault Mégane E-Tech e a Scénic E-Tech, além do Nissan Ariya. Essa mesma base será utilizada nos futuros Nissan Leaf e Mitsubishi Eclipse Cross.
Novos rumos aos 70
No próximo fim de semana, um grande e nostálgico encontro na Normandia vai comemorar os 70 anos da Alpine. A lendária marca, contudo, rompe com as tradições e caminha para se tornar 100% elétrica. Com quatro portas e cinco lugares, o A390 é o segundo modelo da casa de Dieppe movido a bateria — o primeiro, lançado no ano passado, foi o hot hatch A290, nada mais que um Renault 5 E-Tech “alpinizado”. A próxima geração do A110, prevista para 2026, também será BEV.
Enquanto o hatch compacto A290 tem motor e tração dianteiros, o fastback A390 inaugura a tração integral na Alpine, com arquitetura de três motores e vetorização ativa de torque. Na dianteira, há um motor síncrono de rotor bobinado, enquanto na traseira há dois motores síncronos de ímã permanente. Mas o que isso quer dizer e qual a vantagem desse arranjo?
Usar dois tipos de motor elétrico em um mesmo carro é uma estratégia que busca equilibrar desempenho, eficiência e controle. O motor síncrono de rotor bobinado, posicionado na dianteira, permite um ajuste mais preciso da força e da entrega de potência — ideal para garantir tração, estabilidade e desempenho em situações de alta demanda.
Já os dois motores síncronos de ímã permanente, instalados na traseira, são mais leves, simples e eficientes. Eles também possibilitam a vetorização de torque, ajustando a força em cada roda traseira de forma independente, o que melhora a estabilidade e a agilidade nas curvas. Ao menos em teoria, essa combinação permite oferecer níveis superiores de força, eficiência e comportamento dinâmico.
A potência total combinada varia conforme a versão. No A390 GT, são 400 cv e 66 kgfm, permitindo acelerar de 0 a 100 km/h em 4,8 s e alcançar a máxima de 200 km/h. Já no topo de linha A390 GTS, são 470 cv e 82 kgfm, com 0 a 100 km/h em 3,9 s e máxima de 220 km/h.
A distribuição de massa é próxima do ideal para dinâmica esportiva: 49% no eixo dianteiro e 51% no traseiro. O sistema Alpine Active Torque Vectoring atua sobre os motores traseiros, gerenciando de forma contínua e independente o envio de torque para cada roda. Esse controle dinâmico aprimora a capacidade de contorno de curvas, reduz a tendência ao subesterço e melhora a estabilidade lateral.
Isso é especialmente importante, já que o A390 pesa 2.121 quilos — aproximadamente o dobro da atual berlinette A110, com motor a combustão!
Porte de sedã médio
Este novo Alpine mede 4,61 m de comprimento, com entre-eixos de 2,70 m. Como referência, estes números são semelhantes aos do Nissan Sentra atual — porém, o A390 é 8 cm mais alto (1,53 m) e tem bitolas mais largas.
Seu centro de gravidade é baixo, beneficiado pela bateria de 89 kWh posicionada no assoalho. A suspensão tem braços triangulares forjados em alumínio e amortecedores com batentes hidráulicos. A direção é rápida, com relação curta, e os freios incluem discos de 365 mm e pinças de seis pistões, inéditos na marca.
A Alpine desenvolveu cinco modos de condução: Save, Normal, Sport, Perso e Track, que ajustam parâmetros do torque vetorial, controle de estabilidade e resposta de aceleração. O sistema permite ainda desativar completamente o ESC.
A bateria de 89 kWh, com células de íons de lítio do tipo NMC (níquel-manganês-cobalto) de alta densidade, foi desenvolvida pela francesa Verkor e, segundo a Alpine, permite até 555 km de autonomia pelo ciclo WLTP. O sistema de resfriamento reforçado garante estabilidade térmica, evitando superaquecimento e permitindo que o carro repita diversas vezes seu desempenho máximo — como acelerações fortes ou velocidade elevada — sem perda de potência. O carregamento rápido atinge 190 kW, recuperando de 15% a 80% em 25 minutos.
As formas da carroceria têm um quê de A110 alongado, adaptado para abrigar um banco traseiro. O design se baseia na eficiência aerodinâmica, com o coeficiente otimizado por elementos como um aerofólio dianteiro, posicionado entre os faróis, que direciona o fluxo de ar sobre o capô. Na traseira, há um difusor inspirado nos protótipos de hipercarros da categoria Le Mans Daytona h (LMDh), como o Alpine A424. Além disso, flaps orientam a passagem de ar por dentro dos para-lamas, enquanto um discreto spoiler foi instalado na base do vidro traseiro — a curvatura da vigia, aliás, é totalmente inspirada na do A110.
Há rodas de 20” ou 21”, que calçam pneus Michelin Pilot Sport projetados especialmente para o novo Alpine A390 (com direito a uma marcação “A39” nos flancos). A ideia é reduzir a resistência ao rolamento, bem como o ruído de rolagem — algo importante em carros elétricos. Podem ser 245/45 R20 ou 245/40 ZR21.
Por dentro
O cockpit é orientado ao motorista, com volante multifuncional e comandos inspirados na Fórmula 1: botão vermelho OV (de “overtake”, ultrapassagem) para incremento temporário de potência e seletor azul RCH (de “recharger”) para ajuste de quatro níveis de regeneração, incluindo modo “one pedal”.
No painel, há um quadro de instrumentos digital de 12" e uma central multimídia vertical de 12,3". O A390 topo de linha traz ainda o Alpine Telemetrics, sistema que fornece dados em tempo real sobre dinâmica, consumo e desempenho, além de modos interativos e desafios que ajudam o condutor a aperfeiçoar sua técnica de condução.
Desenvolvido pela empresa de engenharia acústica Devialet, de Paris, o sistema de áudio traz de série nada menos que 13 alto-falantes, com controle de distorções e cinco modos de audição. Além disso, o modelo dispõe de um sintetizador que reproduz sons artificiais na cabine, com dois modos à escolha: esportivo ou para o dia a dia.
Há dois níveis de acabamento. A versão GT traz rodas de 20", bancos esportivos com ajustes elétricos e aquecimento, sistema de som Devialet e pacote completo de assistentes de condução (ADAS). Já o A390 GTS vem com rodas forjadas de 21" (com maior resistência estrutural e menor peso), bancos concha com ajustes elétricos, aquecimento e massagem, fornecidos pela italiana Sabelt, acabamento interno em microfibra, sistema de som topo de linha da Devialet (XtremeSound) e o pacote Alpine Telemetrics Expert.
Ambos incluem assistência semiautônoma de condução, controle de cruzeiro adaptativo com função stop & go e sistema de estacionamento automático.
A casa de Dieppe
O A390 será montado em Dieppe, na Normandia, sede da Alpine desde sua fundação, em 1955. A atual fábrica — chamada de Manufacture Alpine Dieppe Jean Rédélé — foi inaugurada em 1969, quando a Alpine ainda era uma empresa independente (a Renault assumiu o controle da marca em 1973).
Os motores elétricos são produzidos em Cléon (também na Normandia) e as baterias, montadas em Douai (bem no norte da França, quase fronteira com a Bélgica). Uma série especial de lançamento chamada A390 Première, que oferecerá mimos exclusivos aos primeiros compradores — incluindo fones Devialet X Alpine, para experimentar o som envolvente do A390 mesmo estando em casa…
Será que o fundador Rédélé aprovaria este fastback de quatro portas e a total eletrificação de sua marca, sem qualquer opção a combustão ou sequer híbrida? Os novos tempos chegaram para a Alpine.
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