Ímãs de terras raras: o material que pode travar a indústria automotiva
Um elemento que está no seu carro é o centro da nova crise global do setor
O amigo leitor já ouviu falar em "ímãs de terras raras"? Este material está se tornando uma dor de cabeça para a indústria automobilística mundial. Embora o cenário atual ainda não configure uma crise global aguda — como ocorreu na escassez de semicondutores durante a pandemia de Covid-19 —, a situação tende a se agravar. Para entender o que está acontecendo, porém, é preciso começar por uma explicação geoquímica.
Existe um grupo de 17 metais pesados, como neodímio, samário, disprósio, térbio e praseodímio, que são conhecidos como “terras raras” ou “elementos de terras raras”. São relativamente abundantes na crosta terrestre, mas, na prática, estão dispersos em pequenas quantidades como resíduos em outros minérios. Para obtê-los com pureza utilizável, é necessário extrair e processar enormes volumes de minério bruto, com grande custo — daí o nome “terras raras”.
Ímãs de terras raras podem travar a indústria automotiva
História
Os primeiros ímãs desenvolvidos com metais de terras raras, na década de 1960, foram os de samário-cobalto. Com propriedades magnéticas excepcionais, mostraram-se resistentes à desmagnetização, corrosão e oxidação, mas tinham como inconveniente o preço muito alto.
Em busca de uma alternativa, tanto a General Motors quanto o grupo japonês Sumitomo começaram, em 1984, a desenvolver ímãs de neodímio. Hoje, esses ímãs são os mais potentes do mercado. Pequenos e leves, conseguem gerar campos magnéticos extremamente fortes — sua energia magnética é 18 vezes maior do que a dos ímãs de ferrite comuns.
O neodímio (Nd) antes de ser transformado em peça automotiva
Desde que seus preços se tornaram competitivos, na década de 1990, os ímãs de neodímio passaram a substituir os ímãs de ferrite (material cerâmico ferromagnético) e de alnico (liga de ferro com alumínio, níquel e cobalto) em muitas aplicações da tecnologia moderna que exigem ímãs potentes: alto-falantes, smartphones, discos rígidos, turbinas eólicas e… motores elétricos.
Além disso, os ímãs de terras raras são essenciais na assistência elétrica da direção, bem como na regeneração de energia de frenagem e em sensores avançados.
Domínio chinês
Nas décadas de 1980 e 1990, o governo chinês identificou os elementos de terras raras como um recurso estratégico e investiu fortemente na mineração e no refino desses materiais.
Hoje, a China é responsável por mais de 95% da produção global de elementos de terras raras e fabrica aproximadamente 76% dos ímãs derivados desses materiais, além de concentrar a maior parte do fornecimento mundial de neodímio. Mesmo países com capacidade de mineração (a Austrália, por exemplo) já exportaram matérias-primas para a China para o refino.
Componentes de Neodmio
Décadas de dependência dos elementos de terras raras de baixo custo, importados da China, sufocaram o desenvolvimento de materiais alternativos ou tecnologias de reciclagem em outros países. Agora, o incremento acelerado no uso de carros elétricos, energias renováveis (como turbinas eólicas), smartphones e outros eletrônicos vem gerando uma demanda que supera a expansão das cadeias globais de suprimento.
Trump entra na história
Desde a década passada, a indústria global acompanha com preocupação a excessiva dependência desses insumos e as sucessivas restrições impostas pelo governo chinês. A guerra comercial iniciada por Donald Trump em 2018 — e retomada com força total no começo de 2025 — reacendeu temores de interrupção no fornecimento. Como resposta, o país asiático adotou medidas mais rigorosas para as exportações de certas tecnologias e componentes ligados às terras raras, sob a justificativa de proteger interesses nacionais.
Em abril passado, o governo chinês anunciou limitações à exportação de sete elementos de terras raras. Esses controles abrangem não apenas os minerais brutos, mas também seus derivados. Os exportadores agora precisam obter licenças específicas, em um processo demorado.
O país asiático também passou a exigir licenças de exportação para alguns tipos de ímãs permanentes, essenciais em motores elétricos e na robótica industrial. Além dos atrasos, o site de notícias Nikkei Asia estima que apenas 25% das solicitações são aprovadas. Isso vem gerando um efeito cascata, e alguns fabricantes de ímãs na própria China interromperam a produção, aguardando a normalização dos envios ao exterior.
Paralisações a caminho
Executivos da indústria automobilística dos Estados Unidos estão emitindo alertas de que a produção poderá sofrer reduções nas próximas semanas. De acordo com o jornal britânico The Times, diversos fornecedores de peças na Europa já começaram a interromper suas operações.
A Motor & Equipment Manufacturers Association (MEMA), associação de fornecedoras de autopeças dos EUA, anunciou esta semana que a situação continua sem solução e que as associadas estão muito preocupadas. Uma carta conjunta pede providências à Casa Branca.
Foto - Plataforma eletrificada da Stellantis
Estima-se que um carro elétrico atual possa conter entre 1 e 2 kg de elementos de terras raras, principalmente neodímio, disprósio e térbio. Esses materiais são utilizados não apenas em veículos 100% elétricos ou híbridos, mas também em modelos com motor a combustão: são transmissões automáticas, corpos de borboleta, alternadores, diversos motores auxiliares, sensores, cintos de segurança, alto-falantes, assistência elétrica de direção, limpadores de para-brisa, ajuste elétrico dos bancos, câmeras e outros equipamentos.
Diante da crise iminente, a Ford já precisou suspender, por uma semana (no fim de maio), a produção do Explorer em sua fábrica de Chicago, nos EUA. Os fornecedores ficaram sem os elementos magnéticos usados nos sistemas de freio, direção, ajuste dos bancos e bicos injetores.
Fábrica do Explorer em Chicago
A escassez de componentes também afeta o Japão. Desde 26 de maio, a Suzuki suspendeu a produção do compacto Swift em sua fábrica de Segara (a 210 km de Tóquio). A companhia prevê um reinício gradual das atividades a partir de 13 de junho.
A Mercedes-Benz avalia a criação de estoques estratégicos de peças para evitar futuras paralisações em sua produção. A BMW também vem conseguindo manter suas fábricas operacionais, mas enfrenta dificuldades na cadeia de suprimentos e busca alternativas para atenuar os efeitos das restrições chinesas.
A produção do Suzuki Swift no Japão está parada desde maio
Com a alta dos preços e a insegurança no fornecimento, os fabricantes vêm buscando alternativas tecnológicas. A Renault, por exemplo, já utiliza motores elétricos que não dependem de metais de terras raras, destacando-se como exceção na indústria. BMW e Tesla seguem esse mesmo caminho e desenvolvem motores elétricos com menos (ou nenhum) elemento de terra rara, buscando reduzir a dependência desses materiais. Mesmo a General Motors — a pioneira dos ímãs de neodímio — trabalha para encontrar substitutos viáveis.
EUA, União Europeia e Austrália tentam correr atrás do tempo perdido e fazem investimentos massivos na mineração e processamento de terras raras em seus próprios territórios. Também há esforços para desenvolver técnicas de reciclagem e materiais substitutos (como ímãs de ferrita), além das pesquisas em tecnologias de motores sem ímãs.
HDSRM - motor elétrico que dispensa metais de terra rara
O mundo está engajado em reduzir a dominância de um único fornecedor em indústrias tão críticas. Contudo, estabelecer cadeias de suprimento fora da China é um processo lento e caro, e o mercado global continua pressionado.
E no Brasil?
Até o momento, não há registros oficiais de paralisações ou atrasos de produção no Brasil diretamente relacionados à escassez de ímãs de terras raras. Porém, o país não está imune à crise, já que a indústria nacional é altamente dependente de componentes importados, sobretudo da China, bem como de fornecedores europeus e norte-americanos que já enfrentam a escassez.
O crescimento acelerado das vendas de veículos elétricos e híbridos no país (com alta de 100% em 2024) aumenta a exposição ao risco de desabastecimento. Modelos eletrificados vendidos no Brasil, como Toyota Corolla Cross Hybrid, BYD Dolphin, Volvo XC40 Recharge e Jeep Compass 4xe, utilizam sistemas que dependem de ímãs permanentes. E, em um cenário prolongado de escassez, há forte possibilidade de aumento nos preços dos veículos eletrificados, tanto no mercado global quanto no nacional.
Toyota Corolla Cross Hybrid XRX
Volvo XC40
Já existe pressão para que o Brasil desenvolva mais políticas industriais voltadas à exploração sustentável de suas próprias reservas de terras raras, especialmente na região Norte e em Minas Gerais, onde há depósitos conhecidos de neodímio. Também há investimentos para a produção de ímãs em Lagoa Santa (MG), mas sua escala e cronograma ainda são incipientes.
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