Brasil pode gerar mais empregos com produção local de baterias
Produção local pode ampliar empregos e renda na transição para carros elétricos no país, aponta estudo do ICCT
Um dos fatores mais determinantes para que o Brasil aproveite os benefícios econômicos da transição para veículos elétricos é a produção local de baterias automotivas. Segundo o estudo A transição da indústria brasileira para veículos elétricos e seus efeitos em emprego e renda, publicado em junho de 2025 pelo ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo), com apoio da USP e Unicamp, a nacionalização da cadeia de baterias pode ampliar significativamente os impactos positivos sobre emprego e renda no país até 2050.
O estudo comparou dois cenários de longo prazo: um chamado Base, no qual predominam veículos a combustão com biocombustíveis, e outro de Eletrificação, no qual os veículos elétricos ganham protagonismo e parte expressiva da produção de baterias ocorre no Brasil. Neste cenário, projeta-se que o conteúdo nacional das baterias suba de uma estimativa inicial de 21% para 50% até 2050, estimulando setores industriais estratégicos como química, mineração, eletrônica, metalurgia e manufatura de equipamentos elétricos.
Importante destacar que o Brasil ainda não produz baterias automotivas em escala industrial. A estimativa de 21% utilizada pelo ICCT não reflete a situação real atual do mercado, mas sim uma simulação baseada em cadeias produtivas já existentes no país, como a de insumos minerais (lítio, níquel, grafite), refino químico e manufatura de partes metálicas e embalagens. Trata-se de um valor teórico usado como ponto de partida no modelo de insumo-produto adotado pelo estudo.
Com essa nacionalização parcial, o cenário Eletrificação já projeta 116% mais empregos do que o cenário Base. O ICCT ainda destaca que, caso o país atinja 100% de conteúdo local nas baterias, esse impacto positivo pode ser ainda maior, ampliando a geração de empregos industriais e renda nacional.
Conteúdo doméstico nas baterias e impacto no emprego
|
Cenário |
Conteúdo nacional estimado nas baterias |
Impacto estimado no emprego |
|
Estimativa-base (curto prazo) |
21% |
Baixo |
|
Eletrificação (projeção 2050) |
50% |
+116% sobre cenário Base |
|
Nacionalização total |
100% |
Impacto potencial ampliado |
Fonte: ICCT (2025)
As baterias representam, em média, 32% do custo de um veículo elétrico, sendo o componente mais caro e o mais crítico em termos de tecnologia. Ao fabricar baterias no país, o Brasil internaliza parte significativa do valor agregado, criando empregos não só na montagem final, mas também nas etapas anteriores da cadeia, como o refino de lítio, fabricação de células, módulos e integração de sistemas eletrônicos.
Além disso, o estudo reforça que a produção nacional de baterias pode reduzir o déficit na balança comercial automotiva, hoje agravado pela importação de tecnologias eletrificadas, principalmente da Ásia. O avanço da indústria local de baterias também fortalece o ecossistema para outros segmentos, como mobilidade leve, armazenamento estacionário de energia e integração com fontes renováveis.
Galeria: Sigma Lithium - MG
Atualmente, o Brasil já possui reserva significativa de lítio, especialmente no Vale do Jequitinhonha (MG), e empresas como a Sigma Lithium e a Atlas estão em processo de expansão. No entanto, a maior parte do material ainda é exportada in natura, sem agregação de valor local. Para o ICCT, a criação de uma política industrial voltada à verticalização da cadeia do lítio e da produção de baterias é essencial para garantir que o país colha os benefícios econômicos da transição energética.
A adoção do programa MOVER, sancionado em 2024, é citada no estudo como um avanço inicial, mas os autores destacam que falta uma estratégia nacional específica para a produção de baterias. O relatório recomenda incentivos fiscais, financiamentos direcionados, estímulo à P&D e atração de fabricantes globais para o país — inclusive em modelos de parcerias com empresas estatais ou fundos soberanos, como fazem outros países emergentes.
Galeria: BYD inicia testes de produção no Brasil
Por fim, o ICCT reforça que a eletrificação da frota brasileira sem produção local de baterias pode tornar o país ainda mais dependente de importações e limitar os ganhos em emprego e renda. Em contrapartida, apostar na nacionalização das baterias pode transformar o Brasil em um polo industrial estratégico na América Latina, com impacto positivo em vários setores e na geração de valor interno.
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