BYD inaugura fábrica em Camaçari e inicia produção no Brasil em regime SKD
Nova planta é a primeira da marca chinesa nas Américas e marcará estreia mundial do híbrido plug-in flex
Após atrasos e contratempos no cronograma, a BYD inaugurou oficialmente nesta quinta-feira (9) sua primeira fábrica de automóveis no Brasil, localizada em Camaçari (BA). O evento, realizado com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do governador Jerônimo Rodrigues e do presidente global da BYD, Wang Chuanfu, marca o início da produção nacional de veículos elétricos e híbridos plug-in em regime SKD (Semi Knocked-Down) e consolida o país como centro estratégico da marca chinesa nas Américas.
O anúncio oficial ocorre cerca de três meses após o início da pré-produção em julho, quando os primeiros testes de montagem e calibração de sistemas foram realizados na linha de montagem. Com o evento desta quinta-feira, a BYD confirma o início efetivo das operações industriais no país, um marco que vinha sendo adiado desde o primeiro semestre.
Com investimento de R$ 5,5 bilhões, o complexo ocupa uma área superior a 4,6 milhões de metros quadrados — equivalente a 645 campos de futebol — e se torna a maior planta da companhia fora da China. Inicialmente, a montagem local ocorre em regime SKD, com componentes importados, mas a previsão é de nacionalização completa da produção a partir de 2026, quando entram em operação as etapas de estampagem, soldagem e pintura, além de um maior índice de peças nacionais.
Capacidade
A unidade de Camaçari inicia suas atividades com capacidade para 150 mil veículos por ano, podendo dobrar para 300 mil unidades em uma segunda fase. Atualmente, a fábrica emprega cerca de 1.800 trabalhadores, número que deve ultrapassar 2.000 nas próximas semanas. Quando estiver em plena operação, o complexo terá potencial de gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos, incluindo prestadores de serviço e fornecedores locais.
As obras começaram em março de 2024, e em apenas 18 meses a primeira das 26 instalações planejadas foi concluída. Os primeiros veículos montados no local já começaram a ser faturados e deverão chegar à rede de concessionárias nos próximos dias.
Primeiro híbrido plug-in flex do mundo
Um dos destaques do evento foi a apresentação do primeiro veículo híbrido plug-in flex do mundo, tecnologia desenvolvida especificamente para o Brasil. O sistema, criado em conjunto por engenheiros brasileiros e chineses, combina uma arquitetura híbrida plug-in de predominância elétrica com um motor capaz de funcionar com qualquer proporção de etanol e gasolina. A proposta une dois pilares estratégicos do país — o biocombustível e a eletrificação — e pode se tornar um diferencial global da BYD.
Os primeiros veículos produzidos em Camaçari serão o Dolphin Mini (100% elétrico) e os híbridos Song Pro e King, que deixam de ser totalmente importados e passam a ser montados localmente. A linha de montagem é flexível e de fluxo misto, capaz de atender simultaneamente modelos com e sem estrutura de carga, abrindo caminho para futuras expansões de portfólio, incluindo utilitários elétricos e híbridos.
Galeria: BYD - linha 2026 na concessionária (BR)
Liderança em carros elétricos
Presente há mais de uma década no Brasil, a BYD mantém operações em Campinas (SP) e Manaus (AM) voltadas à produção de painéis solares, baterias e componentes eletrônicos. Desde 2022, a empresa atua no setor automotivo e rapidamente conquistou a liderança no segmento de veículos eletrificados.
Entre 2022 e setembro de 2025, a marca já emplacou 172.303 veículos elétricos e híbridos plug-in no país. No último mês, foram 9.934 unidades vendidas, sendo 5.687 100% elétricos — o que garantiu mais de 70% de market share entre BEVs e a sétima posição geral entre todas as montadoras. O Dolphin Mini, o Dolphin e o Yuan Pro lideram o ranking nacional de elétricos.
A rede de concessionárias também segue em expansão: atualmente são mais de 190 lojas, com meta de 250 até o fim de 2025, cobrindo todos os estados brasileiros.
Galeria: BYD inicia testes de produção no Brasil
Cenário industrial e concorrência
A nova planta da BYD ocupa parte do terreno da antiga fábrica da Ford, desativada em 2021, e que foi adquirida pelo governo da Bahia em 2023. A rápida reconstrução do espaço e o retorno da produção automotiva em Camaçari ocorrem dentro do contexto de reindustrialização verde do país.
O movimento da BYD também reforça a competitividade do Brasil no setor automotivo. Vale lembrar que, recentemente, a Chevrolet anunciou os preparativos para iniciar a produção do elétrico Spark EUV em Horizonte (CE), ampliando a presença de veículos elétricos montados na região e sinalizando uma nova fase da indústria automotiva.
Controvérsias e desafios
Apesar do avanço industrial, a inauguração da planta ocorre sob certa pressão pública. Nas últimas semanas, denúncias de condições de trabalho análogas à escravidão envolvendo prestadores de serviço terceirizados em áreas ligadas à construção do complexo ganharam destaque na imprensa. A BYD afirmou estar colaborando com as autoridades e reforçou seu compromisso com práticas trabalhistas éticas e sustentáveis, mas o caso ainda é investigado pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Marco para a eletrificação no Brasil
A inauguração da fábrica de Camaçari representa um momento histórico para a mobilidade elétrica no país. Com a combinação de tecnologia local, biocombustíveis e eletrificação, o país avança na nova cadeia global de veículos de baixa emissão.
“É um impulso extraordinário para a economia, o comércio e o desenvolvimento tecnológico do país”, afirmou o ministro da Casa Civil, Rui Costa, durante a cerimônia.
Com o início da produção em Camaçari, a BYD estabelece sua primeira base industrial nas Américas, preparando terreno para exportações regionais e consolidando o Brasil como centro de desenvolvimento de tecnologias híbridas e elétricas — incluindo o inédito híbrido plug-in flex, que simboliza a união entre inovação chinesa e engenharia brasileira. É o início de uma nova fase.
Com Leo Fortunatti, de Camaçari (BA)
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