Brasil pode economizar US$ 250 bilhões com avanço dos carros elétricos
Relatório da Carbon Tracker indica que acelerar os carros elétricos pode reduzir riscos fiscais e energéticos
O Brasil pode estar diante de uma das decisões econômicas mais relevantes das próximas décadas no setor automotivo. Um novo relatório da Carbon Tracker, divulgado nesta semana, indica que acelerar a transição para veículos elétricos a bateria (BEVs) não é apenas uma escolha ambiental, mas uma estratégia capaz de gerar ganhos econômicos expressivos, reduzir riscos fiscais e fortalecer a competitividade do país no cenário global.
Segundo o estudo, uma transição acelerada para carros elétricos poderia evitar até US$ 250 bilhões em gastos com importação de combustíveis fósseis até 2050, além de reduzir de forma significativa a exposição do Brasil à volatilidade dos preços internacionais do petróleo.
Galeria: BYD - carros elétricos em Camaçari
O custo de continuar apostando no motor a combustão
O relatório parte de uma constatação incômoda: apesar de ser produtor de petróleo, o Brasil continua altamente dependente da importação de gasolina e diesel. Em 2024, essa conta já girava em torno de US$ 10 bilhões por ano e, se nada mudar, pode ultrapassar US$ 30 bilhões anuais até 2050.
Manter o transporte rodoviário ancorado em motores a combustão também cria um risco adicional: o de ativos encalhados. Investimentos em refino feitos agora tendem a entrar em operação justamente quando a demanda global por petróleo começa a cair, a partir da década de 2030, pressionada pela eletrificação em escala mundial.
Na prática, isso significa comprometer capital público e privado em uma infraestrutura que pode perder competitividade antes mesmo de atingir sua maturidade econômica.
Eletrificação como escudo econômico
No cenário modelado pela Carbon Tracker, uma adoção acelerada de BEVs permitiria ao Brasil evitar o consumo de 7,7 bilhões de barris de óleo equivalente até 2050 - volume superior a tudo o que o país exportou desde o ano 2000.
Além do impacto direto na balança comercial, há efeitos indiretos relevantes. A redução da poluição do ar, especialmente de material particulado fino (PM2,5) e óxidos de nitrogênio (NOx), poderia evitar cerca de 1.400 mortes prematuras, com uma economia acumulada de US$ 250 milhões em custos de saúde pública.
O estudo também estima que a queda nas emissões do transporte rodoviário reduziria os danos econômicos associados às mudanças climáticas, evitando perdas que variam entre US$ 75 bilhões e US$ 300 bilhões, dependendo da metodologia de desconto adotada.
O Brasil já tem as condições
Um dos pontos centrais do relatório é que o Brasil não parte do zero. Pelo contrário: reúne vantagens estruturais raras entre economias emergentes.
Cerca de 89% da eletricidade brasileira já vem de fontes de baixo carbono, o que faz com que cada novo carro elétrico colocado nas ruas represente uma redução quase imediata de emissões. O país também possui reservas relevantes de minerais estratégicos para baterias, como lítio, grafite e terras raras, além de uma indústria automotiva consolidada, com capacidade instalada próxima de 2 milhões de veículos por ano.
Ainda assim, o estudo alerta que a falta de uma política clara e coordenada para BEVs tem atrasado investimentos e criado sinais contraditórios para consumidores e fabricantes. Tarifas de importação flutuantes, incentivos desalinhados e o foco prolongado em soluções intermediárias, como híbridos baseados em biocombustíveis, aumentam o risco de o país ficar preso a tecnologias que o mercado global já começa a abandonar.
A mensagem final do relatório é direta: a transição para veículos elétricos é inevitável. A questão não é mais “se”, mas quão rápido o Brasil será capaz de se mover. Países que agirem cedo tendem a capturar ganhos industriais, fiscais e tecnológicos; os que demorarem correm o risco de se tornarem destino de tecnologias obsoletas, com custos crescentes e competitividade reduzida.
Depois de liderar duas grandes transformações no setor automotivo — com o etanol nos anos 1970 e os veículos flex nos anos 2000 - o Brasil agora tem diante de si a oportunidade de uma terceira virada. Desta vez, impulsionada pela eletrificação.
Fonte: Carbon Tracker
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