EUA e China disputam minerais e colocam Brasil no centro dos elétricos
Reservas estratégicas e nova indústria expõem dilema entre exportar ou industrializar
A corrida global por minerais críticos, essenciais para baterias e motores elétricos, começa a redesenhar a geopolítica da indústria automotiva. E o Brasil, dono de algumas das maiores reservas do mundo em recursos estratégicos, passou a ser visto como peça-chave nessa disputa, não apenas pelo volume, mas pelo potencial ainda pouco explorado na cadeia industrial.
Hoje, o país figura entre os principais detentores globais de minerais estratégicos como grafite, terras raras e nióbio, além de presença crescente no lítio. Esses recursos são fundamentais para a eletrificação, incluindo lítio, níquel, cobalto e grafite, usados na produção de baterias, enquanto as terras raras têm aplicação principalmente em motores elétricos e outros componentes. Diferentemente de um senso comum recorrente, baterias não utilizam terras raras, que estão mais associadas a motores e eletrônicos.
Sigma Lithium Minas Gerais
Ainda que a disponibilidade de recursos seja farta, o que está em jogo é quem captura o valor dessa cadeia. Hoje, a China domina o processamento e a fabricação de componentes, enquanto países como o Brasil ainda operam majoritariamente como fornecedores de matéria-prima.
Brasil na cadeia de minerais críticos
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Mineral |
Posição global |
Aplicação em veículos elétricos |
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Lítio |
Top 10 |
Baterias |
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Terras raras |
Top 5 |
Motores elétricos |
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Grafite |
Top 5 |
Ânodos de baterias |
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Nióbio |
#1 |
Ligas metálicas / potencial em baterias |
Esse cenário ajuda a explicar movimentos recentes. Os Estados Unidos avançaram com acordos e financiamento direto a projetos no Brasil, como o investimento de US$ 565 milhões na mineradora Serra Verde, voltado à produção de terras raras. Ao mesmo tempo, autoridades americanas buscam ampliar parcerias para reduzir a dependência da cadeia chinesa.
Galeria: Sigma Lithium - MG
Do lado brasileiro, a resposta tem sido mais cautelosa. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem avançado na estruturação de políticas para minerais críticos, incluindo conselhos e programas estratégicos, com foco em industrialização e agregação de valor. A estratégia passa por evitar a simples exportação de minério e incentivar etapas como refino, química de materiais e, eventualmente, produção de componentes.
É nesse contexto que declarações como a do Flávio Bolsonaro, ao afirmar que o Brasil poderia ser solução para os EUA contra a China no fornecimento de minerais, ganham muita repercussão. O episódio escancara um debate maior: qual será o papel do país na nova economia dos veículos elétricos.
O elo com a nova indústria automotiva
Esse debate ganha uma camada adicional com a recente onda de investimentos industriais no Brasil. Montadoras como BYD, GWM e a Renault-Geely avançam em projetos locais, enquanto grupos como Changan, GAC e Leapmotor também anunciaram produção nacional. Paralelamente, a WEG investe em uma grande fábrica de baterias, inicialmente voltada a aplicações estacionárias.
Esse movimento cria uma base industrial voltada à eletrificação e, principalmente, estabelece demanda local por componentes como baterias, motores elétricos e sistemas eletrônicos. Mas essa nova onda não garante, por si só, a formação de uma cadeia nacional completa.
Hoje, o Brasil ainda depende majoritariamente de importações, especialmente da China, para células de bateria, ímãs de terras raras e materiais processados. Ou seja, mesmo com produção local de veículos, os componentes mais estratégicos seguem vindo de fora.
Galeria: BYD - carros elétricos em Camaçari
A “escada” da cadeia elétrica
A formação de uma cadeia nacional tende a seguir etapas bem definidas:
- montagem de packs com células importadas (curto/médio prazo)
- produção local de células (médio/longo prazo)
- integração com refino e materiais (longo prazo)
A nova indústria automotiva ajuda a viabilizar esse processo ao criar demanda e reduzir riscos, mas não o substitui. Sem política industrial, escala e investimentos em química e processamento, a tendência é de uma cadeia fragmentada.
Ainda assim, o movimento atual tem um papel importante. Ao concentrar produção e consumo no país, ele cria as condições econômicas necessárias para justificar etapas mais complexas da cadeia. Em outras palavras, a onda industrial não garante a integração, mas ajuda a torná-la possível.
Decisão crucial
O papel do Brasil na nova economia dos veículos elétricos será definido pela capacidade de conectar o tamanho das reservas e o volume das fábricas instaladas. O país pode seguir como fornecedor de insumos em uma cadeia dominada por economias-chave ou avançar para capturar parte relevante do valor industrial. Tudo vai depender das decisões tomadas agora.
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