Por que a indústria aposta na bateria semissólida antes da estado sólido
Tecnologia já equipa carros na China e pode chegar ao Brasil antes da bateria totalmente de estado sólido
Durante anos, a bateria de estado sólido foi apresentada como a próxima grande revolução dos carros elétricos. Com promessa de maior autonomia, recargas mais rápidas e segurança superior às baterias atuais de íons de lítio, ela passou a ser vista como o próximo salto tecnológico da indústria.
Na prática, porém, transformar essa promessa em produção em larga escala tem se mostrado mais difícil do que o previsto. Em vez de esperar pela maturidade da tecnologia totalmente sólida, fabricantes e fornecedores passaram a investir em uma solução intermediária: a bateria semissólida.
Ela preserva parte da arquitetura das baterias convencionais, reduz significativamente a quantidade de eletrólito líquido e incorpora materiais sólidos na condução dos íons. O resultado é um conjunto que oferece ganhos em densidade energética, segurança e eficiência sem exigir uma ruptura completa das linhas de produção atuais.
Essa estratégia também foi destacada durante o Electric Days 2026 por Marcelo Rezende, diretor para sistemas de baterias da BorgWarner. Segundo o executivo, a evolução das baterias deve acontecer de forma gradual, com soluções intermediárias chegando ao mercado antes da consolidação das baterias totalmente de estado sólido.
Bateria de estado semissólido da MG
O que muda em relação às baterias atuais?
As baterias utilizadas hoje na maior parte dos carros elétricos empregam eletrólito líquido para transportar os íons entre o ânodo e o cátodo.
Na bateria semissólida, parte desse eletrólito é substituída por materiais sólidos ou em gel, reduzindo riscos de instabilidade térmica e permitindo elevar a densidade energética.
Na prática, isso significa:
- maior autonomia sem aumentar significativamente o tamanho da bateria;
- recargas mais rápidas;
- maior estabilidade térmica;
- melhor aproveitamento do espaço interno do conjunto;
- adaptação relativamente simples às linhas industriais já existentes.
É justamente essa compatibilidade com a infraestrutura atual que explica por que diversas montadoras optaram por essa etapa intermediária antes da adoção definitiva das baterias totalmente sólidas.
A tecnologia já saiu do laboratório
Embora ainda seja vista como novidade, a bateria semissólida já começou a equipar veículos de produção na China.
Um dos casos mais recentes é o MG4 Anxin Edition, apresentado pela SAIC como um dos primeiros automóveis produzidos em série com essa tecnologia. O hatch utiliza uma bateria desenvolvida em parceria com a QingTao Energy, oferecendo autonomia de 530 km no ciclo chinês CLTC. A arquitetura reduz a quantidade de eletrólito líquido em relação às baterias convencionais, mantendo compatibilidade com os processos industriais atuais.
Para o Brasil, a situação é diferente. O MG4 Urban, lançado recentemente no mercado nacional, continua utilizando bateria LFP convencional. Ainda assim, o avanço da tecnologia dentro da própria MG mostra o caminho que a fabricante pretende seguir nos próximos anos.
MG lança linha premium IM na Europa
IM Motors reforça estratégia da SAIC
Outra marca do grupo SAIC que aposta nessa evolução é a IM Motors, cuja estreia oficial no Brasil está prevista para agosto.
Na China, o sedã IM L6 Light Year Edition utiliza uma bateria semissólida de 123,7 kWh, também desenvolvida em parceria com a QingTao Energy. Segundo dados divulgados pelo governo chinês, o modelo alcança até 1.002 km de autonomia no ciclo CLTC e opera com arquitetura elétrica de aproximadamente 900 volts, permitindo recuperar cerca de 400 km de alcance em apenas 12 minutos de recarga rápida.
Embora essa configuração ainda esteja restrita ao mercado chinês, ela mostra que a tecnologia já ultrapassou a fase experimental dentro do grupo SAIC.
FAW - sedã elétrica bateria semissólida
Outras fabricantes seguem o mesmo caminho
O movimento não se limita à SAIC. A chinesa FAW anunciou neste ano a integração de uma bateria semissólida de 142 kWh em um veículo de desenvolvimento, utilizando uma nova química rica em manganês. Segundo a fabricante, o conjunto supera 500 Wh/kg de densidade energética nas células e permite autonomia superior a 1.000 km, com planos futuros para pacotes acima de 200 kWh.
O próprio CarNewsChina destaca que outras fabricantes chinesas, como GAC, Geely, Chery, Nio e Dongfeng, também desenvolvem projetos utilizando eletrólitos híbridos (líquido + sólido), buscando aumentar autonomia e segurança sem abandonar completamente as atuais plataformas industriais.
E quando essa tecnologia chega ao Brasil?
Ainda não existe confirmação de modelos com bateria semissólida para o mercado brasileiro. Mesmo assim, o cenário mudou rapidamente. Além da MG Motor, que já comercializa o MG4 Urban no país, marcas como IM Motors e DFM (Dongfeng) iniciam suas operações locais trazendo tecnologias que já fazem parte de seus programas de desenvolvimento na China.
Isso aumenta significativamente as chances de o Brasil receber, nos próximos anos, veículos equipados com baterias semissólidas antes mesmo da chegada das baterias totalmente de estado sólido.
A tendência é que essa tecnologia funcione como uma ponte entre as baterias de íons de lítio utilizadas atualmente e a futura geração de baterias totalmente sólidas, permitindo ganhos graduais de autonomia, eficiência e segurança sem esperar por uma ruptura completa da indústria.
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