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Celular e carro elétrico têm o mesmo problema ao passar de 80% de carga; entenda

Potência cai perto da carga máxima mesmo em carregadores ultrarrápidos, e motivo está na forma como baterias de lítio são protegidas

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Foto de: BYD

Se você já percebeu que o celular carrega rapidamente no começo e parece perder o fôlego quando se aproxima dos 100%, saiba que algo bastante parecido acontece nos carros elétricos, que podem começar uma sessão em uma estação ultrarrápida recebendo 150, 250 ou até 350 kW e reduzir drasticamente essa potência conforme a bateria se aproxima dos 80% de carga.

Embora essa queda possa dar a impressão de algum problema no carregador ou até de desgaste da bateria, o comportamento é proposital e segue uma lógica semelhante à dos smartphones, com o próprio sistema reduzindo progressivamente a energia recebida conforme as células ficam mais cheias para controlar temperatura, tensão e o estresse imposto ao conjunto.

Dolphin Mini - recarga - wallbox

Dolphin Mini e Renault Kwid E-Tech recarregando em sistema AC

Foto de: Motor1 Brasil

Por que a recarga fica mais lenta?

Uma bateria de íons de lítio não consegue receber a mesma quantidade de energia durante toda a recarga, já que as células suportam correntes mais elevadas quando estão relativamente vazias e dentro da temperatura adequada, permitindo que o carro aproveite boa parte da potência disponível em uma estação rápida.

Conforme a carga aumenta e as células se aproximam de sua tensão máxima, porém, o processo precisa ficar mais cuidadoso, fazendo com que o BMS, sigla em inglês para o sistema de gerenciamento da bateria, reduza progressivamente a corrente de acordo com temperatura, estado de carga e outros parâmetros acompanhados em tempo real.

Bateria BYD Blade

Bateria BYD Blade

Foto de: BYD

A lógica é semelhante à encontrada em celulares e notebooks, que também diminuem a potência perto da carga máxima, embora um automóvel tenha um conjunto muito maior de células e sistemas bem mais sofisticados de gerenciamento térmico. Tecnicamente, a bateria passa de uma fase em que consegue trabalhar com corrente elevada para outra em que a tensão precisa ser mantida dentro de limites seguros, obrigando o sistema a desacelerar a recarga.

Por isso, mesmo que uma estação seja capaz de fornecer 350 kW, essa potência só será aproveitada quando o carro e a bateria estiverem preparados para recebê-la, já que é o próprio veículo que determina quanto pode aceitar em cada momento da sessão.

Eletroposto Volvo em São Sebastião (SP)

Eletroposto Volvo 

Por que todo mundo fala nos 80%?

Embora tenham virado uma referência quase universal quando se fala em carros elétricos, os 80% não funcionam como uma barreira exata em que todos os modelos reduzem repentinamente a potência, porque cada veículo possui sua própria curva de recarga e pode começar a desacelerar antes ou sustentar valores elevados por mais tempo.

A temperatura também interfere bastante nesse comportamento, fazendo com que uma bateria muito fria ou excessivamente quente limite a potência mesmo com apenas 20% ou 30% de carga. Para evitar isso, diversos elétricos modernos oferecem pré-condicionamento antes da chegada a uma estação rápida, aquecendo ou resfriando o conjunto para colocá-lo mais perto da faixa ideal de funcionamento.

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Foto de: Motor1 Brasil

Em alguns modelos, basta selecionar o carregador como destino no navegador para que esse processo comece automaticamente durante o trajeto, permitindo que a bateria chegue à estação preparada para receber uma potência maior e reduzindo o tempo de espera.

Essa queda em estados de carga mais elevados também ajuda a explicar por que as fabricantes quase sempre divulgam tempos como 10% a 80% em 20 ou 30 minutos, deixando de lado uma medição completa de 0% a 100%. Como esse intervalo concentra a parte mais rápida da curva, ele representa melhor aquilo que o motorista encontrará em uma parada durante uma viagem.

Dependendo do veículo, recuperar os últimos 20% pode consumir uma parcela desproporcional do tempo total e até levar quase tanto quanto uma parte muito maior da bateria, razão pela qual insistir nos 100% durante uma viagem nem sempre representa a maneira mais rápida de chegar ao destino.

Teste: Chevrolet Captiva EV Premier (BR)
Foto de: Motor1 Brasil

Então vale carregar até 100%?

Chegar aos 100% durante uma viagem em lugares mais afastados dos grandes centros pode fazer sentido quando o motorista realmente precisa de toda a autonomia disponível, mas, quando existem outras estações no caminho, muitas vezes é mais eficiente sair por volta dos 80%, continuar rodando e fazer uma nova parada quando a bateria estiver novamente em uma faixa capaz de receber potência maior.

O que você pensa sobre isso?

Isso não significa que carregar completamente seja necessariamente ruim ou que todos os carros devam permanecer limitados a 80% no uso cotidiano, já que química da bateria, gerenciamento térmico, margens de proteção e recomendações variam de uma fabricante para outra, tornando importante seguir as orientações específicas de cada modelo.

A demora nos últimos pontos percentuais faz parte justamente do gerenciamento que permite explorar potências muito altas sem manter as células sob o mesmo nível de estresse até o limite, repetindo em escala muito maior uma lógica que muita gente já conhece do próprio celular, cuja recarga também desacelera conforme a bateria se aproxima dos 100%.

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