Testamos a Moura Ella: bike elétrica para o dia a dia urbano
Não é SUV elétrico de 3 toneladas que muda o mundo — é a bike elétrica que resolve sua vida
Aqui no InsideEVs Brasil, damos grandes passos para deixar nossos leitores a par de tudo o que está acontecendo no mundo da eletrificação da mobilidade. Mas agora podem acrescentar um termo novo: damos grandes pedaladas para deixar nossos leitores a par também da micromobilidade elétrica.
Trajetos curtos e diários, também elétricos. Para essa empreitada, testamos a Moura Ella, bicicleta de R$ 8.599 que te ajuda no pedal e tem bateria removível. Pode parecer caro, mas é preço de uma bicicleta intermediária convencional e não muito acima daquelas bicicletas elétricas de procedência duvidosa comuns nas redes sociais.
Na redação de Motor1.com Brasil e InsideEVs Brasil, a discussão sobre os carros elétricos sempre tem um porém: como que carros com mais que duas, às vezes chegando em três, toneladas vão ser a resposta para uma mobilidade sustentável? Não são. Para levar uma pessoa, a conta não fecha. É aí que entra a micromobilidade elétrica. Seja bicicleta, patinete, uniciclo, você escolhe. O importante é ter uma ferramenta da mobilidade que, por ser elétrica, incentiva as pessoas a deixar os grandes veículos em casa quando não são necessários.
Galeria: Avaliação especial Moura Ella
A Moura Ella
O nome Moura você já deve ter ouvido. É fabricante das tradicionais baterias de chumbo de 12V para veículos convencionais há décadas, fornecendo até para fabricantes como produto original. Em janeiro, a empresa anunciou a chegada da Ella, sua primeira bicicleta elétrica. A ideia faz sentido: a bateria é o grande gargalo do desenvolvimento de veículos elétricos e, disso, a Moura já entendia. Com a bicicleta, são necessários acumuladores menores, de lítio. Quem sabe a empresa já não esteja de olho em outras baterias também…
A Ella em si é uma bicicleta relativamente convencional. Rodas de 29”, suspensão na dianteira, pneus urbanos da marca Kenda e chassi baixo, para permitir passar a perna por ele, não por cima do banco. Mas a Moura deixou alguns mimos para os ciclistas de primeira viagem. Os freios são a disco nas duas rodas e usam sistema hidráulico da Shimano, nada de cabos.
O câmbio também é Shimano de 8 velocidades com corrente e descarrilhador. São 8 engrenagens no cassete traseiro e engrenagem única na coroa. A bicicleta ainda vem com grandes para-lamas e pode ser equipada com um bagageiro traseiro com capacidade de até 25 kg. A iluminação traz farol de LED e lanterna traseira de LED. Os espelhos retrovisores, obrigatórios por lei, ficam instalados nas pontas do guidão.
Bicicleta elétrica Moura Ella
O painel de instrumentos é digital e tem funções como velocímetro, hodômetro parcial (que reseta ao desligar a bicicleta, infelizmente), indicador da intensidade de assistência e estado de carga da bateria. No punho esquerdo ficam os controles para ligar e desligar o sistema elétrico e aumentar ou diminuir a intensidade do auxílio. Mas ele é o mesmo para diversas funções, até mesmo para ligar e desligar os faróis, o que exige prática para dominar os comandos. No punho direito ficam os engates do câmbio Shimano, por aletas, nada de ficar caçando marcha.
Até aí, uma bicicleta normal. O segredo está no centro da Ella. No cano principal está a bateria com capacidade nominal de 367,2 Wh. Sim, Watt-hora, não Quilowatt (1.000W). Ela opera em 36V de tensão e corrente de 10,2 Ah. A bicicleta vem com um carregador com pico de 42V. Para uma carga completa, pode-se esperar um tempo entre 6 e 8 horas.
Bicicleta elétrica Moura Ella
O outro segredo está no próprio motor elétrico de 350 Watts, central e junto ao pé de vela. Nada de motor na roda para sentir cada buraco que você passa. Além de mais protegido, permite o pedal assistido, com sensor de torque. Em bom português, o motor só entra se você pedala, e responde proporcionalmente à força que você aplica. Classificada como bicicleta de pedal assistido, não pode contar com acelerador dedicado por lei. A assistência elétrica também só funciona até os 32 km/h permitidos pela legislação atual.
A Moura ainda entrega, junto com a bicicleta, uma pequena bolsa que contém, além do carregador, um manual e um pequeno kit de ferramentas básico.
Bicicleta elétrica Moura Ella
Preparo nem sempre é físico
Como estamos falando de um veículo que ainda depende da força do usuário é importante salientar o condicionamento físico precário do escritor semi-idoso. Sou dono de uma bicicleta elétrica com acelerador e imaginava que o sistema de pedal assistido da Moura Ella ia requerer um pouco de costume.
Mas antes ainda tive que me acostumar com o porte da bicicleta. A Ella é alta e o guidão tem uma leve curvatura para trás. Lembra um pouco as famosas bicicletas holandesas, onde a coluna fica reta, com braços relaxados e pernas também retas na posição mais baixa do pé-de-vela. Não é uma posição de desempenho. Mas, em tese, a força vem também do motor elétrico.
O primeiro choque de realidade com a Moura Ella após entender seu tamanho, foi o peso. São 27 kg. Não é bicicleta para pegar embaixo do braço e subir degraus. Se você quiser levá-la no carro, melhor ter algo grande na garagem. A ideia dessa bicicleta em fundamento é ser o transporte, não ser transportada.
Bicicleta elétrica Moura Ella
Na hora de sair, deixei a bicicleta no nível 3 de assistência, o mais elevado. Em terrenos nivelados, a Ella avança com facilidade até os 32 km/h, daí para cima é contigo. Chega a ser engraçado como o motor, por meio do sensor de torque, parece entender quando você tenta o enganar. Se pedalar forte para arrancar, a bicicleta vai responder com tudo. Se você achar que ele não vai perceber que você cansou e aliviou a pedalada, se enganou.
O grande baque com a Moura Ella foi entender que ela não vai pedalar por você, somente aumentará a força que você aplica. Precisei lembrar da época que eu tinha disposição para andar em bicicletas convencionais e estabilizar o ritmo da minha pedalada e controlar a respiração. Tudo isso enquanto tive que trabalhar bem todas as oito marchas do câmbio, mantendo a força e o ritmo, mas variando a velocidade. Para os marinheiros de primeira viagem, essa é a melhor dica que posso dar.
O chassi da Ella não é nem para velocidade, nem para fazer trilha. O que a bicicleta da Moura realmente faz de bom é transformar aquela distância que você acha impossível de ir pedalando em um trajeto que, sabendo usar, não chegará nem suado. As manoplas têm avanços para se apoiar as mãos e a sua ergonomia é para rolês mais longos, não rápidos. Também não fingirei que sei avaliar assento de bike. Para mim, todos são ruins depois de uma hora pedalando e a Ella não foi diferente.
Bicicleta elétrica Moura Ella
A suspensão dianteira pode ser polêmica. Eu advogo em favor de que bicicletas urbanas não deveriam ter suspensão dianteira. Mas talvez pelo peso maior da bicicleta da Moura, a solução de garfo telescópico caiu bem. Os grandes para-lamas também evitam que você molhe as costas ou os pés em pisos molhados e, podem não ser bonitos, mas em uma bike que quer te convencer a ir ao trabalho de bicicleta, são quase que obrigatórios.
O bagageiro também tem uma boa capacidade para levar suas coisas, pena que não há nada de fábrica que permita a amarração de itens. Achei que era uma questão já resolvida desde a década de 1980, quando Caloi Barra Circular e Monark Barra Forte tinha bagageiro traseiro com uma aba com mola para levar itens menores no bagageiro sem recorrer a cordinhas ou elásticos.
Os espelhos nas pontas do guidão não caíram no meu gosto. São pequenos e difíceis de ajustas. Além disso, aumentam a largura efetiva da bike, atrapalhando quando você precisa manobrar entre os carros parados. Falando em andar no trânsito, fica uma recomendação para a Moura: a Ella não corta o motor quando você aciona os freios. Isso pode gerar alguns sustos quando você está arrancando e precisa parar repentinamente, como no caso de uma fechada. Se você tem mania de deixar o pé apoiado no pedal com a bicicleta parada, o sensor de torque segue atuando e a bicicleta quer sair andando. No uso urbano, a pequena buzina de sineta não se mostrou eficiente nem para avisar os pedestres.
Bicicleta elétrica Moura Ella
Eu sou uma pessoa com muita dificuldade em adotar transporte público. Não gosto de dividir meu espaço com os outros e o sistema em si, ao menos na capital paulista, é lento, caro e sobrecarregado. Como a distância de minha casa à redação do InsideEVs Brasil é inferior a 10 km, também não é o melhor case para um veículo convencional, seja a combustão, híbrido ou elétrico.
Com um trajeto com muitas subidas e sem regeneração no motor, ainda usando a assistência máxima, o indicador de bateria caía para 50% ao se acelerar já com pouco mais de 30 km. Os 100 km de autonomia declarados pela Moura talvez possam ser atingidos, mas usando menos assistência e em terrenos mais nivelados. Na hora da carga, com a bateria no estado descrito acima, foram pouco mais de 4 horas para a recarga até 100%. Também fica um aviso: o carregador esquenta bastante, o que pode não se traduzir em longevidade do componente.
Nesse meu uso, a Moura Ella dá um baile de eficiência. Ainda que com alguns pontos a melhorar, a bicicleta surpreendeu por ter me feito tirar os glúteos da cadeira e fazer algum exercício. Como ela depende de você pedalar de fato ao mesmo tempo em que se locomover com a Ella vira uma curtição. Vários setores vão te agradecer por escolher-la: seu cardiologista, o trânsito e o meio ambiente.
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