Teste Leapmotor C10 EV: o chinês contra os chineses e parente dos Jeep
Por R$ 214.990, pode chegar a mais de 500 km de alcance, mas falha onde os outros também já falharam
A Stellantis se apoia na experiência e na reputação que suas marcas, como Fiat e Jeep, já possuem no Brasil para dar peso à Leapmotor. Chinesa, a marca é parceira do grande grupo e chegou ao país com o C10, um SUV médio elétrico, justamente o segmento que BYD, GWM e até Geely tanto visam dominar.
Este é o Leapmotor C10 elétrico, versão sem o motor a combustão para recarregar as baterias, mas com um alcance interessante pelo preço de R$ 214.990. Se você espera que ele seja um "Jeep elétrico", já adianto que não é o que encontrará. Ao mesmo tempo, é possível perceber um pouco do DNA da empresa no projeto.
Negócio da China
A Stellantis detém uma parte das ações da Leapmotor em uma joint venture, relação completamente diferente da que possui com Jeep, Ram e demais marcas do grupo. Com isso, a Leapmotor entra com a engenharia e as vantagens típicas das fabricantes chinesas, principalmente em eletrificação, enquanto a Stellantis auxilia na expansão dos negócios ao redor do mundo.
O C10 é um modelo desenvolvido para o mercado global. Utiliza a plataforma LEAP 3.0 (arquitetura eletrônica centralizada com suporte a 400V e baterias integradas ao chassi), que pode servir de base para novos modelos elétricos da Stellantis no futuro, e contou com a participação da engenharia do grupo na calibração, especialmente de direção e suspensão, para agradar ao público da Europa e da América do Sul.
É um SUV médio/grande tradicional, com 4.739 mm de comprimento, pouco menor que o Jeep Commander (4.764 mm), 2.825 mm de entre-eixos, 1.900 mm de largura e 1.680 mm de altura. O design é limpo, sem apelar a ângulos agressivos ou caimento cupê, seguindo uma linha um tanto genérica já vista em outros modelos chineses, embora tente impactar com maçanetas embutidas e rodas de 20".
Por dentro, a estética é ainda mais semelhante a diversos outros veículos da China: painel horizontal, console central alto com carregador por indução, bom nível de acabamento e duas telas (10,25" para o painel de instrumentos e 14,6" para a central multimídia, rodando o SoC Qualcomm Snapdragon 8155). O seletor de marchas na coluna lembra os Mercedes-Benz dos anos 2000, e praticamente não há comandos físicos fora da tela.
Nada no visual o identifica como um Stellantis, o que gera questionamentos como "que marca é essa?" nas ruas. Muitos se surpreendem ao saber que ele é um parente, ainda que distante, de Jeep e Fiat, marcas com as quais dividirá a rede de concessionárias, pós-vendas e peças para tentar consolidar seu espaço no Brasil.
Mais de 500 km com uma carga
O Leapmotor C10 EV disponível no Brasil possui motor único no eixo traseiro, com 218 cv e 32,6 kgfm. Para suas duas toneladas (2.007 kg em ordem de marcha), a potência não é o destaque, mas o torque agrada pela disponibilidade imediata. Com o seletor de modos de condução, as respostas são suaves em qualquer configuração, sem os trancos ou sustos comuns em alguns elétricos.
Este é um ponto em que a influência da Stellantis se destaca. A engenharia do SUV é refinada: desde o acerto das respostas do motor até a suspensão (McPherson dianteira e multilink traseira), que mantém o conforto típico dos chineses, mas sem as batidas secas ou o excesso de balanço da carroceria, mesmo sendo um carro longo. Esse ajuste carrega o DNA da Stellantis do Brasil, que domina o acerto de chassi, apesar de o C10 não ter a mesma precisão de um Jeep, por exemplo.
Em nossos testes padronizados, o C10 EV atingiu a média urbana de 7,5 km/kWh, resultando em um alcance de 524 km com a bateria LFP (Lítio-Fosfato de Ferro) de 69,9 kWh úteis (72 kWh brutos), um número excelente para o porte do carro. Em ritmo rodoviário a 100 km/h, fez 6,3 km/kWh, com alcance previsto de 440 km, ainda uma boa média para um elétrico em estrada. O ponto negativo é a recarga DC com pico de apenas 84 kW em corrente contínua (CCS2), além do carregador embarcado AC de 11 kW, valores baixos diante da concorrência que já opera próximo ou acima de 150 kW.
O desempenho é honesto: 0 a 100 km/h em 7,9 segundos e retomadas entre 5 e 6 segundos. Se na cidade ele é dócil, na estrada não tem dificuldades para manter o ritmo, mesmo carregado, embora isso reduza a autonomia registrada.
O espaço interno é outro trunfo. Com portas grandes que facilitam o acesso, o entre-eixos é muito bem aproveitado, especialmente no banco traseiro, onde três ocupantes (ou dois adultos com muito conforto) acomodam-se bem. O porta-malas tem 465 litros de capacidade, além de um pequeno compartimento dianteiro (frunk) de 32 litros para cabos de recarga ou carregadores portáteis.
Fora do comum até demais
Talvez um cliente fiel de Jeep ou Fiat se incomode com alguns excessos (ou faltas) da Leapmotor. Primeiro, a ausência de espelhamento para smartphones (Apple CarPlay ou Android Auto), o que contradiz o pacote tecnológico destacado no marketing.
Além disso, a ergonomia exige adaptação: ajustar retrovisores, saídas de ar-condicionado ou o nível de frenagem regenerativa depende exclusivamente da tela, eliminando os práticos botões físicos. Embora existam atalhos programáveis no volante e no teto, a dependência do visor central é constante.
Até o acesso ao veículo é complexo. Para quem não quer usar o smartphone como chave ou precisa deixar o carro com um manobrista, é necessário usar um cartão NFC que deve ser encostado no retrovisor do motorista para destravar e colocado no carregador por indução para liberar a partida. É pouco funcional: se você precisar apenas abrir o porta-malas, terá de ir até o retrovisor primeiro. Uma chave presencial convencional ainda faz muita falta.
Stellantis ou não?
Para enfrentar as marcas chinesas, a Stellantis trouxe a sua própria. Apostou em um SUV de bom porte, elétrico, tecnológico e com preço competitivo. O diferencial é a rede de assistência técnica e a calibração de engenharia, e quem sabe até interfira na hora de revender este carro.
Aos poucos, o C10 deve ganhar mercado, especialmente quando passar a ser montado em Goiana (PE). Contudo, ele poderia ter ainda mais a "mão" da Stellantis na usabilidade do sistema e na calibração do pacote ADAS (assistência de condução), que ficou devendo em termos de refinamento para as vias brasileiras. Donos de Jeep, acostumados com ergonomia mais tradicional, sentirão esses detalhes na troca. Por outro lado, entusiastas e donos de outros chineses podem agradecer o pós-vendas e a robustez da rede do grande grupo.
Leapmotor C10 EV
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