EREVs: solução de transição ou desvio no caminho da eletrificação?
Tecnologia de elétricos com alcance estendido volta ao debate com avanço na China e novos modelos no Brasil
Os veículos elétricos de autonomia estendida, ou EREVs (Extended-Range Electric Vehicles), voltaram ao centro do debate na transição energética do setor automotivo. Com vendas em alta na China e o lançamento de novos modelos na Europa — como o Leapmotor C10 REEV — essa configuração híbrida reacende questionamentos sobre sua real eficiência ambiental e papel na transição para um transporte livre de emissões.
Diferentemente dos híbridos plug-in tradicionais (PHEVs), nos quais tanto o motor elétrico quanto o motor a combustão podem tracionar as rodas, os EREV operam com tração exclusivamente elétrica. O motor a combustão existe apenas para gerar energia e manter a bateria carregada quando a carga inicial se esgota. Esse conceito, embora já conhecido desde os tempos de Chevrolet Volt e depois BMW i3 REx, ganhou fôlego nos últimos dois anos, especialmente no mercado chinês.
Chevrolet volt 2017
Segundo a organização europeia Transport & Environment (T&E), a China vendeu cerca de 1,2 milhão de EREVs em 2024, número que representa um crescimento expressivo, embora ainda inferior ao volume de veículos híbridos plug-in e 100% elétricos vendidos por lá. O impulso veio de subsídios generosos concedidos aos chamados “Veículos de Nova Energia” (NEVs), que incluem também os EREVs.
Extensor de alcance Mahle
Mas será que essa alternativa técnica é realmente eficiente e sustentável?
Eficiência só com bateria
Um estudo recente da T&E, com base em dados de consumo de 17 modelos chineses populares com essa motorização, aponta que, após o esgotamento da bateria, o consumo médio dos EREVs chega a 6,4 litros/100 km (15,6 km/l) — valor comparável ao de SUVs híbridos tradicionais. A autonomia elétrica média observada foi de 185 km, embora alguns modelos mais recentes, como o Luxeed R7 e o conceito Volkswagen ID.ERA, prometam ultrapassar os 280 km no modo elétrico.
BMW i3
Assim como nos PHEVs, o uso predominante da propulsão elétrica depende diretamente dos hábitos de recarga dos motoristas. Se a bateria não é carregada com frequência, o veículo tende a operar como um carro a combustão convencional, o que compromete seus benefícios ambientais - ainda que o EREV seja elétrico, o motor térmico funcionaria por mais tempo para alimentar o sistema, mitigando as vantagens ambientais. Em mercados onde o acesso a carregadores é limitado ou onde os incentivos distorcem a escolha dos consumidores, esse risco é ainda maior.
Europa em alerta, Brasil em fase de descoberta
Na Europa, a T&E defende que a tecnologia EREV pode ter um papel transitório até 2035, desde que substitua modelos puramente a combustão e seja usada corretamente, ou seja, com recarga frequente e condução prioritariamente elétrica. Caso contrário, os EREVs podem representar mais um desvio do que uma solução.
Galeria: Salão de Xangai: Leapmotor C10 chega em breve no Brasil
Por outro lado, muitos enxergam os EREVs como uma porta de entrada mais realista para a mobilidade elétrica, especialmente em regiões onde a infraestrutura de recarga ainda está em desenvolvimento — como em boa parte da América Latina.
Horse Powertrain
No Brasil, o público terá em breve a oportunidade de conhecer de perto essa proposta com o Leapmotor C10 REEV, SUV com autonomia elétrica declarada de 145 km e motor 1.5 que entra em funcionamento apenas como gerador. O modelo é fruto da parceria entre a montadora chinesa Leapmotor e o grupo Stellantis, que anunciou seu lançamento por aqui a partir desse ano.
A discussão em torno dos EREVs mais uma vez deixa claro um ponto-chave no debate sobre descarbonização do transporte: não existe uma única solução universal. As tecnologias híbridas — sejam elas paralelas (PHEV) ou em série (EREV) — podem desempenhar papéis diferentes conforme o estágio de eletrificação de cada mercado.
Se por um lado os dados sugerem que os benefícios ambientais dos EREV podem ser mais modestos do que os anunciados, por outro, é preciso considerar que eles podem ser uma solução transitória para um elétrico puro (BEV) para parte do público. Nesse cenário, soluções híbridas ainda têm espaço, desde que aplicadas com clareza, sem exagero nas promessas, e com responsabilidade ambiental.
Fonte: T&E
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