ABVE vê avanço dos plug-ins e Brasil pode pular etapa dos híbridos leves
No E-Days, Ricardo Bastos apontou domínio de BEVs e PHEVs e mudança no perfil da eletrificação
Durante anos, a indústria automotiva tratou os híbridos leves (MHEV) como uma etapa quase natural na transição entre os carros a combustão e os veículos totalmente eletrificados. No Brasil, porém, os dados mais recentes começam a indicar uma trajetória diferente e mais qualificada.
Na abertura do e-Days, Ricardo Bastos, presidente da ABVE, destacou que os veículos plug-in - elétricos a bateria (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) - já representam mais de 80% das vendas de eletrificados no país. O movimento indica uma mudança importante no perfil da eletrificação local: em vez de avançar gradualmente dos híbridos leves para tecnologias mais eletrificadas, o mercado brasileiro pode estar acelerando diretamente rumo aos plug-ins.
Segundo Bastos, a eletrificação no Brasil já entrou em uma fase de consolidação, impulsionada pela expansão da infraestrutura de recarga, pela chegada de novos modelos e pela maior familiaridade do consumidor com tecnologias eletrificadas.
“O debate já não é mais se a eletrificação vai acontecer, mas em qual ritmo e com quais tecnologias”, resumiu o executivo durante a apresentação.
A leitura é importante porque contrasta com o caminho adotado por parte da indústria tradicional. Em muitos mercados, a transição costuma seguir uma escada mais gradual: primeiro os sistemas mild hybrid de 48 V, depois híbridos convencionais, híbridos plug-in e, por fim, elétricos puros. No Brasil, porém, essa lógica pode estar sendo encurtada.
Na prática, o consumidor que decide migrar para um veículo eletrificado parece demonstrar interesse crescente por modelos com capacidade real de rodar em modo elétrico - seja por meio de baterias maiores em PHEVs, seja com veículos 100% elétricos.
Isso explica o forte avanço recente de marcas chinesas no mercado brasileiro. Fabricantes como BYD, Geely e GWM apostaram fortemente em BEVs e PHEVs, com foco em maior autonomia elétrica, pacotes tecnológicos mais completos e preços competitivos. Com isso, ajudaram a acelerar a aceitação de veículos com recarga externa.
Outro fator importante é a infraestrutura. Bastos destacou no E-Days que o Brasil já superou 25 mil pontos públicos e semi-públicos de recarga, com crescimento acelerado dos carregadores rápidos (DC). Embora a infraestrutura ainda esteja longe da maturidade observada em mercados mais avançados, a expansão da rede ajuda a reduzir uma das principais barreiras de entrada: a ansiedade de autonomia.
Isso não significa, porém, que os híbridos leves perderão relevância no curto prazo. Para muitas montadoras, os sistemas MHEV continuam sendo uma solução estratégica por exigirem menor investimento, ampliarem a eficiência energética e dispensarem mudanças de hábito por parte do consumidor.
Além disso, em segmentos mais sensíveis a preço, os híbridos leves ainda podem se mostrar mais acessíveis do que BEVs ou PHEVs.
Mesmo assim, os dados apresentados pela ABVE sugerem que a dinâmica brasileira pode estar tomando uma direção própria. Em vez de uma transição longa e gradual, o país parece começar a favorecer tecnologias com maior grau de eletrificação.
Se essa tendência se confirmar, o mercado brasileiro poderá se diferenciar de parte do restante do mundo - pulando etapas e consolidando mais rapidamente BEVs e PHEVs como protagonistas da eletrificação.
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