Por que donos de REEV usam cada vez menos o motor a gasolina
Baterias maiores mudam o perfil de uso dos elétricos de autonomia estendida
Apesar de terem um motor a gasolina, os veículos elétricos de autonomia estendida (REEV) são utilizados pela maioria dos proprietários como carros elétricos. Com baterias cada vez maiores, muitos passam semanas - ou até meses - sem abastecer, deixando o motor a combustão restrito principalmente às viagens mais longas. Essa mudança de comportamento ajuda a explicar por que a tecnologia ganha espaço na China e começa a chegar ao Brasil.
O conceito não é novo, mas a evolução recente dessa tecnologia está mudando a forma como ela é utilizada. Se antes os REEVs contavam com baterias relativamente pequenas e dependiam com mais frequência do gerador a gasolina, os modelos mais recentes já oferecem autonomias elétricas que rivalizam com muitos carros totalmente elétricos.
Na prática, isso significa que boa parte dos proprietários pode teoricamente passar semanas - ou até meses - sem ligar o motor a combustão.
O que diferencia um REEV de um híbrido plug-in?
Embora ambos precisem ser recarregados na tomada e utilizem um motor a combustão, um REEV funciona de forma diferente de um híbrido plug-in convencional (PHEV).
Nos PHEVs tradicionais, tanto o motor elétrico quanto o motor a combustão podem movimentar as rodas, alternando ou trabalhando em conjunto dependendo das condições de condução.
Já no REEV, a tração é sempre elétrica. O motor a combustão não impulsiona diretamente o veículo. Sua função é atuar como um gerador, produzindo eletricidade para alimentar a bateria quando seu nível de carga diminui.
Na prática, o motorista dirige um carro elétrico praticamente o tempo todo. O motor a gasolina permanece desligado durante boa parte do uso cotidiano e entra em funcionamento apenas quando necessário para manter a bateria dentro da faixa ideal de operação.
Baterias maiores mudaram o perfil de uso
Os primeiros REEVs utilizavam baterias relativamente modestas, normalmente suficientes para pouco mais de 100 km de condução elétrica. Mas nos últimos dois anos, entretanto, a indústria chinesa iniciou uma corrida por baterias cada vez maiores.
Hoje já existem modelos equipados com baterias superiores a 70 kWh e autonomias elétricas acima de 400 km no ciclo chinês CLTC - números que, até pouco tempo atrás, eram exclusivos de veículos elétricos puros. Essa evolução mudou completamente a forma como esses veículos são utilizados.
Segundo levantamento citado pela imprensa chinesa, mais de 90% dos proprietários utilizam seus REEVs como se fossem carros totalmente elétricos. Além disso, cerca de 70% afirmam abastecer menos de uma vez a cada seis meses.
Em outras palavras, para muitos consumidores o motor a combustão deixou de fazer parte da rotina. Ele permanece disponível para viagens mais longas ou situações excepcionais, mas passa grande parte da vida útil desligado.
Então por que manter um motor a gasolina?
Essa é justamente a discussão que começou a ganhar força na indústria. Do ponto de vista técnico, um veículo capaz de percorrer mais de 400 km utilizando apenas a bateria já atende a praticamente toda a rotina diária da maioria dos motoristas.
Mesmo assim, muitas montadoras continuam apostando na arquitetura REEV e a principal explicação está no comportamento do consumidor.
Mesmo com o avanço da infraestrutura de recarga e da autonomia dos elétricos, muitos compradores ainda valorizam a possibilidade de continuar viajando sem depender exclusivamente de carregadores rápidos.
Nesse cenário, o motor a combustão deixa de ser o principal responsável pela propulsão e passa a funcionar como uma espécie de seguro para ocasiões específicas, eliminando a preocupação com a autonomia em deslocamentos mais longos.
Xpeng G7 EREV
Ao mesmo tempo, há executivos da indústria que defendem que, com baterias tão grandes, faria mais sentido investir diretamente em veículos totalmente elétricos, reduzindo peso, complexidade mecânica e custos.
O debate mostra que a evolução dos REEVs abriu uma nova etapa na eletrificação: eles deixaram de ser apenas uma alternativa aos híbridos convencionais e passaram a disputar espaço também com os próprios elétricos.
O que vimos na prática
A experiência prática ajuda a entender por que muitos proprietários utilizam um REEV como se fosse um carro elétrico.
Durante a avaliação de cerca de 1.000 km com o Leapmotor C10 REEV realizada pelo Motor1 Brasil, o SUV se comportou como um elétrico enquanto havia carga suficiente na bateria. Nessa condição, a condução manteve o silêncio, a resposta imediata do motor elétrico e alta eficiência energética, com o motor a combustão permanecendo desligado.
LS6 EREV
O cenário muda quando a bateria atinge o nível mínimo programado pelo sistema. A partir daí, o motor a gasolina entra em funcionamento para alimentar o gerador e manter a carga de reserva. Embora o motorista continue sendo impulsionado exclusivamente pelo motor elétrico, passam a existir perdas inerentes à conversão de energia - da gasolina para eletricidade e, depois, para o motor de tração.
Na prática, isso se reflete em aumento do consumo de combustível, maior nível de ruído e uma eficiência inferior à observada quando a bateria dispõe de uma reserva maior de energia. Ainda assim, o sistema permite seguir viagem sem depender imediatamente de um carregador, preservando a principal proposta dos REEVs: oferecer uma experiência predominantemente elétrica sem a preocupação com a autonomia.
O Brasil deve seguir essa tendência
Embora a China seja hoje o principal laboratório dessa tecnologia, o Brasil começa a trilhar um caminho semelhante. O Leapmotor C10 REEV já está à venda no país. Em breve, a marca também deverá lançar o B10 REEV, enquanto a GAC confirmou o i60 utilizando a mesma arquitetura.
A possibilidade de produção nacional desses modelos é mais uma confirmação de que a tecnologia deve ganhar relevância nos próximos anos.
Em um mercado onde a infraestrutura de recarga ainda está em expansão e viagens de longa distância continuam sendo um fator importante para muitos consumidores, os REEVs surgem como uma alternativa capaz de oferecer a experiência de condução de um elétrico sem abrir mão da flexibilidade proporcionada pelo gerador a combustão.
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