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Brasil irá repetir a desvalorização dos carros elétricos da Europa?

Executiva da Arval/BNP Paribas diz que país vive “segunda onda” da eletrificação, com carros mais modernos

Avaliação - BYD Dolphin - (BR)

Enquanto parte da Europa enfrenta forte desvalorização de carros elétricos usados, o Brasil pode seguir um caminho diferente. A avaliação vem de executivos do setor automotivo que acompanham o avanço da eletrificação e enxergam uma vantagem importante do mercado brasileiro: o país estaria entrando na era dos elétricos já com produtos mais modernos, baterias mais confiáveis e uma geração tecnológica mais madura.

A tese foi levantada durante um painel promovido pela Indicata sobre eletrificação automotiva e impactos no mercado de seminovos. Segundo Lorena Castaldelli, executiva da Arval/BNP Paribas, o Brasil vive uma espécie de “segunda onda da eletrificação”, diferente da realidade enfrentada por muitos países europeus nos primeiros anos dos carros a bateria.

renault kwid e-tech recarga no carregador lento
Foto de: InsideEVs Brasil

Na prática, isso significa que o consumidor brasileiro estaria tendo contato principalmente com veículos lançados após 2020, já equipados com baterias mais avançadas, autonomias maiores e níveis superiores de confiabilidade. Na Europa, por outro lado, uma parte relevante do mercado passou pela primeira geração dos elétricos modernos na década de 2010, quando autonomia limitada, degradação de bateria e incertezas tecnológicas ainda eram maiores.

Essa diferença ajuda a explicar por que alguns países europeus viram modelos elétricos usados perderem valor rapidamente nos últimos anos, especialmente após cortes agressivos de preços dos veículos novos e avanços rápidos de tecnologia. O temor de muitos consumidores passou a ser simples: comprar um elétrico hoje e vê-lo se tornar rapidamente obsoleto poucos anos depois.

No Brasil, porém, os primeiros sinais parecem apontar para outra direção. Dados recentes da própria Indicata mostram que modelos como BYD Dolphin Mini, Dolphin e Song Pro estão entre os eletrificados usados de até quatro anos com venda mais rápida no país, medidos pelo indicador Market Days Supply (MDS), que mede a relação entre estoque e vendas. Quanto menor o índice, maior tende a ser a liquidez do modelo no mercado. O Dolphin Mini, por exemplo, aparece com MDS de 15,1 dias, enquanto o Dolphin registra 15,8 dias e o Song Pro, 17,9 dias.

Isso não significa, porém, que o mercado brasileiro esteja imune aos desafios enfrentados pela Europa. Há diferenças importantes de escala e maturidade. Hoje, os eletrificados ainda representam menos de 1% do mercado de seminovos no Brasil, segundo avaliação apresentada pela Fenauto durante o evento da Indicata. Ou seja, ainda não houve um verdadeiro teste de estresse da revenda desses veículos em grande volume.

Galeria: BYD - linha 2026 na concessionária (BR)

Outro fator é que locadoras e grandes frotistas ainda possuem baixa participação de carros elétricos em suas operações. Isso reduz a pressão de oferta no mercado de usados, algo que tende a mudar conforme os primeiros ciclos maiores de renovação de frota avancem nos próximos anos.


O que você pensa sobre isso?

Ainda assim, especialistas do setor enxergam motivos para cautela otimista. O Brasil entrou mais tarde na corrida dos elétricos, mas talvez justamente por isso tenha evitado alguns dos erros do passado. Em vez de conviver com modelos pioneiros de autonomia limitada e baterias menos eficientes, o consumidor brasileiro começou a receber uma geração mais madura de veículos eletrificados.

BYD Dolphin Mini GS 2026 (BR)
Foto de: Mario Villaescusa / Motor1.com

Se isso será suficiente para impedir uma desvalorização semelhante à vista na Europa ainda é cedo para afirmar. Mas, ao menos por enquanto, os sinais sugerem que o mercado brasileiro pode estar construindo uma trajetória diferente para os elétricos usados.