Por que os elétricos ainda não reduziram o consumo de gasolina no Brasil?
Eletrificados já representam 23,3% das vendas, mas gasolina e diesel seguem em alta; entenda o motivo
Quem anda por cidades como São Paulo ou Brasília percebe que os carros elétricos estão cada vez mais presentes. Nunca se venderam tantos veículos eletrificados no país. Em julho, eles responderam por 23,3% dos emplacamentos de veículos leves, um novo recorde, enquanto o acumulado do ano já supera 300 mil unidades: crescimento de 123% em relação ao mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, um estudo do Citi concluiu que a expansão dos veículos elétricos começa a reduzir estruturalmente a demanda por derivados de petróleo em mercados como China e Europa. Mas a pergunta que surge naturalmente é se o Brasil já vive essa mesma realidade.
Cenário diferente
Enquanto os eletrificados avançam nas concessionárias, o consumo de combustíveis continua crescendo. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que as vendas de diesel B aumentaram 2,8% no primeiro trimestre de 2026, totalizando 16,8 bilhões de litros. A gasolina C também registrou alta de 2,1%, enquanto apenas o etanol hidratado apresentou retração, de 6,8%.
À primeira vista, os números parecem contraditórios. Mas eles refletem duas dinâmicas que acontecem em velocidades completamente diferentes.
O desafio está na renovação da frota
O mercado costuma acompanhar os emplacamentos mês a mês, que dão uma visão clara da mudança, mas quem determina o consumo de combustíveis é a frota que efetivamente circula pelas ruas.
Segundo a Senatran, o Brasil possui cerca de 131,8 milhões de veículos, dos quais 65,4 milhões são automóveis. A eles se somam mais de 30,8 milhões de motocicletas, 10,4 milhões de caminhonetes e 3,2 milhões de caminhões, todos consumindo gasolina, etanol ou diesel diariamente.
Os eletrificados avançam rapidamente, mas partem de uma base muito menor. Levantamento da ABVE Data mostra que o país já acumula mais de 836 mil veículos leves eletrificados desde 2012. Considerando os resultados de julho, quando foram vendidos outros 61,8 mil modelos, esse estoque já se aproxima de 900 mil unidades.
1% da frota circulante
Mesmo assim, trata-se de pouco mais de 1% da frota nacional de automóveis. É justamente essa diferença que explica o aparente paradoxo. Nas vendas, os eletrificados já deixaram de ser um nicho. Na frota, porém, ainda representam uma parcela pequena diante dos milhões de veículos a combustão que continuam circulando.
Cada veículo elétrico que começa a circular nas nossas ruas reduz o consumo de combustíveis, mas a grande questão é a escala.
Estudos sobre mobilidade indicam que um automóvel brasileiro percorre, em média, entre 10 mil e 15 mil quilômetros por ano. Considerando uma rodagem intermediária de 12,5 mil quilômetros anuais e um consumo médio da frota próximo de 11 km/l, um carro 100% elétrico deixa de consumir cerca de 1.140 litros de gasolina por ano.
Galeria: 100% a 5% 2026 - Motor1.com Brasil e InsideEVs Brasil
O impacto individual é bem expressivo. Mas quando comparado ao mercado brasileiro de combustíveis, porém, ainda é diluído por uma frota que supera 130 milhões de veículos e continua crescendo.
Há outro fator importante. Boa parte dos eletrificados vendidos hoje ainda utiliza combustíveis líquidos. Híbridos convencionais (HEV), híbridos flex e híbridos plug-in (PHEV) reduzem o consumo, mas não eliminam totalmente a necessidade de abastecimento. Isso faz com que a queda na demanda por gasolina e etanol aconteça de forma muito mais gradual do que o crescimento das vendas de eletrificados pode sugerir.
Mudança nos postos leva mais tempo
Essa diferença entre vendas e frota explica por que as projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) continuam indicando expansão do consumo de combustíveis no curto prazo. O crescimento da atividade econômica, da logística e da própria frota ainda supera o efeito provocado pela eletrificação.
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Estoque de BEVs |
Gasolina evitada/ano* |
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1 milhão |
~1,1 bilhão litros |
|
2 milhões |
~2,3 bilhões |
|
5 milhões |
~5,7 bilhões |
|
10 milhões |
~11,4 bilhões |
Dessa forma, a transição tende a ser mais lenta. Embora os veículos 100% elétricos eliminem completamente o consumo de gasolina, boa parte da eletrificação brasileira continuará sendo formada por híbridos convencionais (HEV), híbridos flex, híbridos plug-in (PHEV) e, mais recentemente, elétricos com extensor de autonomia (REEV). Todos eles reduzem o consumo de combustíveis, mas em intensidades diferentes.
Enquanto um BEV pode eliminar mais de mil litros de gasolina por ano, um híbrido convencional costuma economizar entre 20% e 40% em relação a um veículo equivalente, e um plug-in depende da frequência de recarga e do perfil de uso do motorista. Isso significa que a queda no consumo nacional tende a ocorrer de forma mais gradual do que sugeriria uma substituição direta por veículos totalmente elétricos.
A pergunta, portanto, já não é mais se os elétricos vão reduzir o consumo de gasolina no Brasil, mas quando isso começará a aparecer nas estatísticas da ANP. E, ao que tudo indica, esse ponto de inflexão dependerá muito mais da velocidade com que a frota brasileira for renovada - além da participação que híbridos, híbridos plug-in e REEVs terão nessa transição.

Fonte: ANP, ABVE, SENATRAN
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