Ir para o conteúdo principal

Opinião: No bico do corvo, essas marcas chinesas podem não sobreviver

Apesar da força do setor automotivo chinês, algumas empresas já mostram sinais de esgotamento

Fotos ao vivo do Salão Internacional do Automóvel de Xangai 2025
Foto de: Patrick George

Durante o Salão de Pequim de 2024, o jornalista Kevin Williams, do InsideEVs dos Estados Unidos, teve contato direto com diversas marcas e startups chinesas que apostam alto no futuro dos carros elétricos. Mas apesar do brilho e da inovação visíveis nos pavilhões, sua impressão foi outra: quantas dessas marcas realmente vão sobreviver?

Em sua análise publicada originalmente no InsideEVs US, Kevin relata com ceticismo o que viu na China — um país com centenas de fabricantes de veículos elétricos surgindo ano após ano, mas também com um número crescente de empresas desaparecendo silenciosamente. No Salão de Xangai de 2025, por exemplo, havia quase 100 marcas em exposição. Algumas das que ele viu em edições anteriores, no entanto, já deixaram de existir.

Salão Internacional do Automóvel de Xangai 2025

Salão Internacional do Automóvel de Xangai 2025

Foto de: Patrick George

A seguir, trazemos três casos emblemáticos citados por Kevin Williams:

Jiyue 07  (4)

Ji yue 07 

Foto de: EV AutoHome

Ji Yue

Essa empresa começou como uma joint venture promissora entre o equivalente chinês do Google, chamado Baidu, e a Geely. Sim, a Geely tinha mais uma marca voltada para a tecnologia, mas, ao contrário da Polestar, da Volvo e da Zeekr, a Geely simplesmente fornecia a base do carro, enquanto a Baidu fazia todo o resto.

Pelo que experimentei no ano passado, os recursos de assistência ao motorista do carro eram impressionantes. O Ji Yue 01 prometia uma direção autônoma melhor que a da Tesla, quase de nível 3, por um preço não muito alto. Ele usava a mesma plataforma SEA de quase todos os novos Geely, Zeekr, Volvo ou Lynk & Co, embora não fosse tão bom quanto os modelos mais sofisticados destas marcas.

jiyue-07-2024-01-min

Ji Yue 07

No entanto, os avanços técnicos do carro não foram suficientes para tirá-lo do chão. O hatchback Ji Yue 01 teve dificuldades para atingir mais do que alguns milhares de vendas mensais. A marca lançou o elegante sedã 07, mas ele não conseguiu aumentar as vendas.

Em dezembro, a crise veio à tona: funcionários protestaram por salários atrasados, enquanto um engenheiro-chefe recomendava que os colegas deixassem a empresa o quanto antes, segundo reportagem do CarNewsChina. A Ji Yue ainda não foi oficialmente declarada falida, mas várias lojas estão sendo fechadas e muitos dos recursos avançados de assistência ao motorista podem deixar de funcionar sem o suporte da montadora.

Yuanhang Y6

Yuanhang Y6

Foto de: Yuanhang

Yuanhang

Uma marca da qual você provavelmente nunca ouviu falar, esse desdobramento de luxo da Dayun (também outra marca que você provavelmente não conhece) foi um destaque no Salão do Automóvel de Pequim do ano passado. Para ser sincero, os carros pareciam um pouco subdesenvolvidos, com designs genéricos e interiores não tão bons (embora chamativos). 

 A Yuanhang realizou todos os tipos de demissões e teve dificuldades para vender mais do que algumas centenas de unidades por mês na China. A Yuanhang ainda não fechou oficialmente, mas, a menos que, de alguma forma, dê a volta por cima, também estará bem morta. 

Neta L

Neta L

Foto de: Neta

Neta

No Salão do Automóvel de Pequim do ano passado, a Neta teve um estande bastante grande. Sua maior novidade foi o lançamento do Neta L, um SUV concorrente do BYD Song Plus com tecnologia EREV e preço de US$ 14.000 (R$ 79.542).

Esse foi o mais recente lançamento da marca, que oferece uma série de elétricos e EREVs, incluindo até mesmo uma elegante perua chamada Neta S Hunting. Por um tempo, as vendas pareciam promissoras, e a marca até fez investidas em partes do Sudeste Asiático e do Oriente Médio e Norte da África com exportações e produção. A empresa vendeu mais de 60.000 carros em 2024.

Neta S Hunting Edition

Neta S Hunting Edition

Foto de: Neta

Mas 2025 não foi bom. A Neta anunciou severas demissões, e alguns afirmam que todo o departamento de pesquisa e desenvolvimento da empresa deixou de existir. A marca ainda tem presença nas mídias sociais, pelo menos, com a maioria de suas postagens girando em torno do Brasil, da Indonésia e da Tailândia.

O governo tailandês concedeu à Neta um empréstimo de US$ 215 milhões em março (R$ 1,4 bilhão), mas não está claro se isso será suficiente para manter a empresa funcionando, mesmo fora da China. A Neta claramente está apostando seu futuro nos mercados de exportação.

 

Em 7 de abril, após as notícias da crise da Neta terem se alastrado pelo mundo, o CEO da Hozon Auto, Fang Yunzhou, reafirmou o compromisso da montadora com o mercado brasileiro de veículos elétricos e anunciou novos investimentos e expansão da rede em 2025.

No comunicado oficial, Yunzhou reconheceu o período de ajustes organizacionais, mas afirmou que a empresa está no caminho da recuperação e que novos investimentos estão em andamento. Ele destacou que a operação brasileira continuará e será tratada como prioridade máxima entre os mercados internacionais.

A Neta Auto iniciou suas atividades no Brasil em novembro de 2024, com pontos de venda localizados em shoppings de cinco estados: São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraíba, Ceará e Espírito Santo. Em janeiro de 2025, a marca inaugurou sua primeira concessionária física, no Rio de Janeiro.

Avaliação Neta X 500 Luxury (BR)

Neta X 500 Luxury (BR)

Foto de: Motor1 Brasil

Atualmente oferecendo os modelos Neta Aya, um elétrico compacto, e o Neta X, um médio vendido em duas versões, a marca já fala em um terceiro modelo, que seria o esportivo Neta GT, atualmente em processo de homologação. Os planos da Neta Auto incluem ainda uma fábrica no Brasil, que irá operar inicialmente em regime CKD. A decisão visa reduzir custos e contornar tarifas de importação. Caso saia do papel, a unidade deve produzir 15 a 20 mil veículos por ano na primeira fase, aumentando para até 40 mil na etapa seguinte, com foco também na exportação para a América Latina.

Lembre-se de que essas são apenas três marcas que eu sabia que tinham estandes ativos no Salão do Automóvel de Pequim. Outras marcas como HiPhi, Aiways ou Evergrande Auto também morreram no ano passado, embora bem antes do salão. A China tem muitos veículos elétricos e marcas de veículos elétricos excelentes, mas não há como suportar tantas marcas fazendo a mesma coisa. Mesmo com subsídios do governo e mais de um bilhão de clientes em potencial, esses números não são sustentáveis.

Hozon Neta GT

Neta GT

Dropshipping automotivo?

Com o passar do tempo, o mercado continuará a se consolidar. Em breve, não seria surpresa se alguns dos maiores fabricantes de veículos elétricos da China desistissem ou unissem forças, especialmente se os mercados de exportação continuarem um tanto hostis aos veículos elétricos importados da China.

O que você pensa sobre isso?

Ainda assim, essa é uma grande quantidade de ideias que podem ir para o lixo. Talvez alguma startup europeia ou americana empreendedora possa comprá-las e fabricar seus próprios veículos elétricos em outros mercados. Mais ou menos como o dropshipping da Amazon, mas para carros. E pelo que foi possível ver e dirigi por lá, essa pode não ser uma ideia tão maluca.

Entre em contato com o autor: Kevin.Williams@InsideEVs.com

Compartilhe este artigo