Brasil vive nova fase dos elétricos após boom chinês e tarifa cheia
IEA vê avanço dos plug-ins, maior peso de BYD e GWM e um mercado menos dependente de importações
O mercado brasileiro de veículos eletrificados ganhou velocidade nos últimos anos apoiado em uma combinação rara: carros chineses competitivos, imposto reduzido e um consumidor disposto a experimentar novas tecnologias, mas ainda sem abandonar completamente o motor a combustão. O resultado foi um crescimento que colocou o país no radar global da eletromobilidade e fez do Brasil um dos destaques do Global EV Outlook 2026, estudo anual da Agência Internacional de Energia (IEA).
Em 2025, o Brasil vendeu cerca de 180 mil veículos eletrificados, número equivalente a 9% de todos os carros novos comercializados no país, acima dos 6,5% registrados no ano anterior. Na América Latina, o avanço foi ainda mais amplo: a região cresceu 75%, puxada principalmente por Brasil e México, responsáveis por mais de três quartos desse salto.
O tamanho do crescimento ajuda a explicar por que tantas marcas chinesas passaram a olhar o Brasil com mais atenção. Mas há outro motivo. Poucos mercados do mundo acabaram desenvolvendo um perfil de consumo tão particular quanto o brasileiro.
Enquanto Europa, China e outros polos de eletrificação caminham cada vez mais para carros 100% elétricos, o consumidor brasileiro seguiu outro caminho. Os híbridos plug-in (PHEV) se tornaram protagonistas e representam a maior parte das vendas de eletrificados no país. Segundo a IEA, eles responderam por algo entre 50% e 60% do mercado nos últimos anos, enquanto os modelos totalmente elétricos ficaram com 45% das vendas em 2025.
Há, porém, um detalhe importante: os dados da IEA refletem o fechamento de 2025. Em 2026, os elétricos a bateria (BEV) passaram a crescer em ritmo mais forte no Brasil, movimento puxado principalmente pela ampliação da oferta e pela queda de preços em modelos de entrada. Ainda é cedo para saber se isso representa uma mudança estrutural ou apenas uma aceleração momentânea, mas o avanço dos BEVs neste ano sugere um mercado mais equilibrado entre as tecnologias.
De qualquer forma, o Brasil ainda tem uma infraestrutura de recarga desigual, concentrada nos grandes centros e corredores rodoviários mais desenvolvidos. Ao mesmo tempo, viagens longas continuam sendo um ponto de atenção para muita gente. Nesse ambiente, modelos como BYD Song Plus, Song Pro e GWM Haval H6 PHEV encontraram espaço ao oferecer condução elétrica no uso urbano, mas sem exigir do motorista uma mudança brusca de hábito.
O etanol também entra nessa conta. A possibilidade de abastecer em praticamente qualquer posto do país ajudou a reduzir parte da resistência de consumidores que ainda enxergam os elétricos puros com cautela. Não por acaso, a própria IEA destaca o BYD Song Pro flex como um exemplo de produto adaptado especificamente ao mercado brasileiro.
Grande parte dessa transformação aconteceu com forte influência chinesa. De acordo com o relatório, quase 85% dos eletrificados vendidos no Brasil em 2025 foram produzidos na China, participação ainda dominante, embora ligeiramente menor do que no ano anterior. O recuo aconteceu justamente quando parte das fabricantes começou a trocar o navio pela linha de montagem local.
Inauguração fábrica GWM em Iracemápolis (SP)
A IEA cita diretamente a operação da GWM no Brasil, responsável por quase 5% dos eletrificados vendidos no país em 2025, além do início das atividades industriais da BYD em Camaçari (BA). A movimentação ocorre dentro do avanço do calendário da recomposição do imposto de importação, que começa a mudar as contas do setor e deve alterar parte da estratégia das montadoras chinesas no país.
Nos últimos anos, o crescimento dos elétricos no Brasil caminhou lado a lado com tarifas reduzidas para veículos importados. Isso ajudou marcas chinesas a entrar no mercado oferecendo preços agressivos, especialmente em segmentos onde montadoras tradicionais ainda tinham pouca oferta. Agora, com a volta gradual do imposto cheio, o desafio passa a ser outro: manter os preços competitivos sem depender do mesmo nível de vantagem tarifária.
Galeria: BYD - carros elétricos em Camaçari
O relatório da IEA sugere que parte dessa resposta deve vir justamente da produção nacional. O estudo aponta que a capacidade de BYD e GWM replicarem localmente o baixo custo dos carros antes importados pode ter peso importante na próxima etapa do mercado brasileiro.
Os preços também ajudaram a mudar o ritmo do mercado. Em 2025, os carros elétricos ficaram mais próximos dos modelos a combustão no Brasil. Segundo a IEA, o ágio médio dos veículos 100% elétricos caiu pela metade e ficou abaixo de 15%, movimento puxado principalmente pelos fabricantes chineses. Os híbridos plug-in continuam mais caros, mas também reduziram distância em relação aos equivalentes a combustão.
O mercado brasileiro de eletrificados continua crescendo rápido, mas o cenário já não é exatamente o mesmo de dois ou três anos atrás. O carro chinês importado e barato segue relevante, embora deva perder parte da vantagem com a recomposição das tarifas. Ao mesmo tempo, a produção local ganha peso, enquanto elétricos puros e híbridos plug-in avançam em paralelo sobre um espaço antes dominado quase exclusivamente pelos modelos a combustão.
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