Pequim quer frear “concorrência irracional” de BYD e rivais em elétricos
Governo chinês propõe medidas para conter concorrência desleal no setor de veículos elétricos
A guerra de preços entre fabricantes chinesas de veículos elétricos — liderada por empresas como BYD e Geely — virou alvo direto das autoridades centrais da China. O Conselho de Estado, que reúne os principais líderes ministeriais do país, se comprometeu nesta semana a controlar o que chamou de “concorrência irracional” no setor de carros elétricos, buscando preservar o equilíbrio do mercado e a estabilidade econômica do país.
A decisão foi anunciada após uma reunião presidida pelo primeiro-ministro Li Qiang na quarta-feira (16), segundo comunicado divulgado pela agência estatal Xinhua News. Na ocasião, o gabinete chinês afirmou que pretende reforçar a fiscalização sobre preços e custos, melhorar a qualidade dos produtos e orientar as montadoras a competirem por inovação, e não por cortes agressivos de preço.
O setor de veículos elétricos é considerado estratégico para os objetivos ambientais e industriais da China, e seu crescimento tem sido acelerado. A BYD, por exemplo, ultrapassou a Tesla em vendas na Europa em abril de 2025. Mas esse avanço também tem provocado tensões comerciais com Estados Unidos e União Europeia, que acusam as marcas chinesas de práticas de concorrência desleal — especialmente pelo uso de subsídios e preços abaixo do custo.
A própria BYD, junto com a Geely e outras grandes fabricantes, foi convocada recentemente por autoridades chinesas para discutir práticas como atrasos no pagamento a fornecedores e redução de preços. Após o encontro, as montadoras concordaram em limitar o prazo de pagamento a 60 dias.
Galeria: BYD - linha 2026 na concessionária (BR)
Segundo analistas ouvidos pela Bloomberg, a preocupação do governo chinês está diretamente ligada aos sinais persistentes de deflação na economia. Os preços dos veículos vêm caindo há três anos consecutivos, e a pressão por cortes se espalha para outros setores, como o de aço. “Se os preços dos veículos elétricos puderem se estabilizar, isso poderá ajudar a aliviar a pressão sobre toda a cadeia produtiva”, disse Tianlei Huang, do Peterson Institute for International Economics (PIIE).
Ainda que não tenha detalhado medidas concretas, o governo sinalizou a criação de um mecanismo de longo prazo para regular a concorrência e promover mais disciplina no setor. Entre as possibilidades estão a imposição de pisos informais de preços, inspeções de custos e até coordenação para redução de capacidade produtiva — hoje, segundo dados do setor, mais da metade da capacidade instalada está ociosa.
“O setor de veículos elétricos da China está maduro o suficiente para passar por uma consolidação”, disse Duncan Wrigley, da Pantheon Macroeconomics. Ele avalia que fusões e aquisições devem ser incentivadas para eliminar empresas menos competitivas — inclusive entre fabricantes de carros a combustão, que também enfrentam excesso de produção.
A movimentação de Pequim para conter a guerra de preços pode ter reflexos indiretos no Brasil, onde marcas chinesas como a BYD e GWM vêm ampliando rapidamente sua presença. Se preparando para iniciar a produção de carros elétricos em Camaçari (BA) ainda em 2025, a BYD pode adotar uma estratégia mais equilibrada de preços, alinhada às novas diretrizes da matriz. Além disso, a estabilização do mercado chinês pode influenciar os custos globais de componentes, como baterias, e afetar o posicionamento de preços dos modelos importados vendidos no mercado brasileiro.
Fonte: Bloomberg
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